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quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Os elos perdidos da infância

Lau Siqueira

Há mais de duzentos anos Rousseau afirmou que uma criança não é um adulto em miniatura. Ainda hoje alguns setores imprescindíveis para uma intervenção mais efetiva no drama vivido por crianças e adolescentes de um mundo abandonado possuem dúvidas profundas acerca desta afirmação. Sem eliminar outras interpretações, compreendo que Rousseau quis dizer que as especificidades de uma vida em formação, sem as proteções necessárias, fragilizam a construção dos dias e noites do futuro cidadão ou cidadã. A usurpação dos direitos (e o cínico desprezo pelos deveres) das crianças e dos adolescentes é, seguramente, um assunto que precisa ser encarado como uma calamidade pública nas pequenas e grandes cidades brasileiras. Pensar coletivamente e agir coletivamente é, sem nenhuma dúvida, o único caminho e a estratégia mais eficaz para buscarmos a contenção do tsunami social e existencial que este fato, ainda sem a devida atenção das mais diversas aldeias globais, precisa despertar. Talvez não tenhamos tanto tempo assim para reagir diante de uma realidade que se torna cada vez mais assustadora. Mas, se formos razoáveis o suficiente para refletirmos acerca do tipo de circunstância que estamos gerando e para a necessidade de responsabilidades compartilhadas, ao invés de terceirizadas, teremos alguma chance de reação no enfrentamento do problema.

Apesar da postura pouco atenta de boa parte da sociedade, não nos resta a menor dúvida: estamos diante de um abismo de proporções devastadoras e cujos efeitos já estão sendo revelados, cotidianamente, de forma crescente. São reais, infelizmente, as notícias de violência sexual contra crianças de até dois anos de idade, ou menos. É real, também, a apatia, a indiferença e (o que é pior), a banalização do que está posto. Esta violação de direitos é fruto de ações, muitas vezes de pais, tios, vizinhos, padrastos. O certo é que existem lacunas enormes na proteção aos pequenos localizadas exatamente onde a lei estabelece a centralidade dos seus benefícios, ou seja: a família. Se é verdade que a família é o mais adequado espaço para uma criança também é verdade que a família anda de tal forma transgredida que abriga também a maior quantidade de denúncias de violação de direitos. Alguma coisa, portanto, jamais dependerá das políticas públicas porque se refere à supressão de uma cultura de banalização da vida. Algo que passa pelas políticas de educação, saúde, assistência, turismo e, principalmente, das políticas públicas de cultura que são, evidentemente, onde se processam as mudanças de hábito.

Os fatos que batem à nossa porta são inúmeros. Por esses dias a cidade de João Pessoa amanheceu escandalizada com a apresentação de imagens de uma criança de apenas dois anos fumando um baseado na presença da jovem mãe (19 anos) e outros jovens. Infelizmente, este não é um fato isolado. Não podemos fechar os olhos para a imensa degradação da condição humana que está posta no cotidiano. Já testemunhei na Lagoa do Parque Sólon de Lucena, uma adolescente amamentando e cheirando cola. Infelizmente não pude mais encontrá-la depois que consegui estacionar e ligar para o Conselho Tutelar. O espantoso é que a menina-mãe circulava em meio a pessoas absolutamente indiferentes ao nervo exposto da violação de direitos.

O uso de drogas por crianças (em idade sempre mais tenra) e o uso dessas crianças em atividades ilícitas com a irrestrita violação do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) deverá aprofundar um quadro social de barbárie, caso não sejamos capazes de refletir mais profundamente acerca das responsabilidades de cada ente público, de cada organização social e de cada cidadão e cidadã. Não temos tempo para esperar o bom senso dos novos governantes. É bom que se pense nisso nesse momento pré-eleitoral. O que se faz urgente é a construção de um tipo de memória social que reflita a indignação ao invés da diferença. A mortalidade de crianças e adolescentes cresce porque a violência à qual são submetidas é cada vez mais precoce e eles próprios passam a ser agentes da violência que os destrói. Pesquisadores já constatam que se mata mais, proporcionalmente, em Mandacaru que no Afeganistão. Quando se busca os assassinos, segundo meu amigo Jorge Camilo, se encontra crianças de 12 a 15 anos. Os mais velhos já alcançaram divisas mais graduadas no pesadelo dos becos. Uma liderança comunitária da comunidade Santa Clara me disse outro dia que o bandido mais perigoso da comunidade, tinha apenas 13 anos e já contabilizava uma dezena de mortes.

Portanto, reagir ao caos que está posto significa estabelecermos claramente as responsabilidades e não apenas transferirmos as culpas, como ocorre usualmente. Os limites do Poder Público, nas três esferas, já está vencido. Tristes daqueles que não percebem que a cratera é mais em baixo. Só para exemplificar: quando começarão as cobranças da responsabilidade social dos diversos canais de mídia abrigados em concessões públicas? Até quando os Estados se sentirão desobrigados de comparecer com contrapartidas nos programas sociais? Até quando as grandes fortunas do país entenderão que os investimentos não deverão acontecer apenas na blindagem das suas carruagens “mudernosas”? Há algo que ainda não foi feito porque os interesses, mesmo dos movimentos sociais que deveriam estar denunciando estas perversidades, ainda são muito localizados e partidarizados. Por outro lado, a mídia recolhida aos interesses da burguesia reconhece e repercute indefinidamente o escândalo a quebra do sigilo fiscal da filha do eterno presidenciável, José Serra. Entretanto, esquece que o escândalo social é infinitamente maior. Um escândalo que deveria nos preocupar por permitir que a esmagadora maioria do povo brasileiro permaneça à margem da Receita e das despesas do País. Os resultados dessa desigualdade, começam a repercutir na infância que se espalha como uma epidemia pelas ruas das cidades brasileiras. Inclusive e, principalmente, da nossa cidade. Tomara que o exercício de um pensar e agir de forma repartida, nos ajude a encontrar o elo perdido da infância, elemento imprescindível para impormos ao planeta uma cultura de paz e igualdade de direitos e deveres.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

O HÁLITO DO FOGO E A ANCESTRALIDADE TRANSGRESSORA DE FRANCC NETO

Lau Siqueira

Para quem banca a própria rebeldia diante da banalização do extraordinário, a experimentação sempre significará um salto no abismo. É como se na hora do salto estivéssemos chegando de uma alameda de dois caminhos que costuram eternidades na obra e no artista. Estas são algumas das senhas para a diáspora dos ímpares, dos que munidos de coragem futurista e densidade ancestral constroem o ato de criar novas estruturas para as sensações e demais significados da condição humana. A idéia do Belo, em Hegel, se refere à “manifestação do verdadeiro tomado em sua aparência sensível”. A obra de Francc Neto nos remete à incontáveis leituras, sobretudo, como “manifestação do verdadeiro em sua aparência sensível.”

“Quando possível, respeitada a natureza peculiar a cada uma das artes, tenderá a desaparecer a diferença de atitudes discernida muito bem por Mário Pedrosa entre poeta e pintor concreto: a fenomenologia da composição cederá lugar a uma verdadeira matemática da composição”, segundo Haroldo de Campos. Mas, nem é apenas isto o que está posto para nós, neste momento. O que veremos por aqui se refere ao impacto do oposto, do singular, da arte que suscita num só tempo, a barbárie, a plenitude e uma reflexão ética sobre o mundo e sobre a humanidade, com suas distorções e harmonias.

Impressiona o artista que troca os pincéis pelo maçarico e a tinta até mesmo pelo fogo intenso das fogueiras, para a feitura de uma alquimia de resinas, fuligens, espiritualidade, pigmentos, plotagens, vento, tempo, mais espiritualidade, madeira reciclada... Despido das impropriedades do ego, o artista mergulha num experimentalismo permanente e questionador das misérias microscópicas e macroscópicas do planeta. Parece-me ser desta veia que jorra o suor criativo de Francc Neto, um habitante do espanto e do encantamento, um artista paraibano que aciona seu passaporte para o time dos que tatuaram suas marcas na história da arte.

A madeira extraviada e reciclada, as representações simbólicas do tempo e do silêncio, do corpo humano também. A serragem, a cera de abelha ou de carnaúba, as imperfeições naturais do mundo, furos, riscos, ações de prego e martelo. Também tintas e vernizes, mas sobretudo o fogo é o elemento que coordena a impulsão criativa do artista. Muito fogo sobre compensado numa leitura da barbárie desses tempos corridos que tecem o terceiro milênio. Um tempo que nos atravessa a alma com as impropriedades da civilização. Francc realiza e expõe a amplitude dum universo que transita pela tradição e pela transgressão, sem negações de identidades nem apelos pasteurizantes. Certamente navegando na imersão dos espíritos livres que comandam a experimentação na história viva da arte. Estamos testemunhando aqui uma capacidade de invenção que se traduz para muito além da ancestralidade tecida no fogo, partindo para um estranho dadaísmo, com grande poder comunicativo. Um trabalho que jamais será condecorado pela indiferença.

Doutor em sociologia da arte pela universidade de Tours (França) e em Literatura e Língua francesa pela universidade de Toronto, Derrick de Kerduckhove, numa investigação sobre a nova realidade eletrônica, afirma que “hoje as tecnologias são tão versáteis que nos dão poder para refazer aquilo que chamamos realidade.” Um pensamento que se aproxima por oposição extremada ao sentido da arte de Francc Neto que faz tudo isso apenas com as ferramentas mais primitivas, apostando nas revelações da intensidade, da insanidade, do contraponto à violência como instrumento de uma obra que aponta um gesto primordial numa exposição para quem a arte sempre será o melhor motivo. Afinal, como disse Fayga Ostrower, “criar é um processo existencial.”

domingo, 30 de maio de 2010

Pela descriminalização da infância e da juventude na Cidade das Acácias!

Lau Siqueira
Na última semana de maio a cidade de São Luiz (MA) sediou o primeiro encontro regional para integração SUAS* /SINASE*. O evento tratou da municipalização das medidas sócio-educativas em meio aberto. Uma das palestrantes resgatou da mitologia um exemplo de punição educativa. O deus Apolo, símbolo da beleza, da juventude e da luz, uma das doze divindades do Olimpo, fruto da união de Zeus com Leto, amparou os signos da esperança propositiva no discurso da palestrante. Apolo, entre outros atos não menos desabonadores matou a flechadas um bando de Cicoples (personagens com um olho único, na testa) enviados por Zeus. Como punição, foi expulso do Olimpo e veio exilado para a Terra. Cumpriu sua pena trabalhando como pastor de rebanhos. O aprendizado da mortalidade transformou radicalmente o jovem Apolo. Os ensinamentos da punição educativa mostraram novos caminhos e Apolo descobriu que poderia determinar os dias, as noites e as estações do ano. Passou a ser conhecido, então, como o Senhor das Colheitas.

Apesar da forte simbologia mitológica aqui resumida, nossas reflexões partirão de outro tipo de Olimpo. Um lugar onde Zeus foi esquecido e o modo de organização das divindades vem gerando Apolos subnutridos, crescendo nos chamados aglomerados subnormais. Muito especialmente em cidades onde a riqueza de uns poucos ilumina avenidas e constrói suntuosidades arquitetônicas. Na bela, moderna e histórica São Luiz do Maranhão, onde a Governadora Roseana Sarney anunciou o investimento de vinte milhões de reais para os festejos juninos, os palafitas ainda cortam de sangue o olhar indignado dos que lutam pela partilha das colheitas de Apolo. Enquanto a modernidade ergue seus monumentos, pequenos deuses e deusas saem para as ruas das cidades brasileiras buscando conquistar o direito de viver mais um dia. Seja limpando os fumês de um Vitara no semáforo, suplicando caridade pelas esquinas, ou praticando os pequenos (e imensos) delitos que sobraram como opção para uma iniciativa autônoma de sobrevivência no Olimpo capitalista.

No momento que se inicia a municipalização das medidas sócio-educativas em meio aberto na cidade de João Pessoa, as reflexões que busco resumir neste breve artigo apontam para o fato de estarmos implantando uma política pública numa sociedade de desigualdades criminosas. Em tempos de disputa eleitoral - onde os escrúpulos geralmente escasseiam - jamais poderemos confundir ou minimizar as nossas responsabilidades que devem ser, obviamente, repartidas. A municipalização dos serviços, pois, não pode ser impunemente tratada como uma desova de obrigações. Os três níveis de governo e a sociedade têm atribuições intransferíveis na sua condução. Não existem modelos ou cartilhas. No máximo, alguns poucos exemplos dignos de atenção para uma imprescindível troca de saberes. As experiências bem sucedidas nos revelam a necessária delicadeza de estabelecermos um debate sincero acerca da parte que nos cabe neste latifúndio. No caso da Paraíba (e de outros Estados) convivemos com a mais soberba alienação do Governo Estadual quanto as suas atribuições tão claramente estabelecidas na Lei Orgânica da Assistência Social. Não apenas em relação às medidas, mas quanto à Política Nacional de Assistência Social como um todo. Da mesma forma, convivemos com uma profunda conivência do Ministério Público Estadual quanto a este fato que é, sem qualquer dúvida, determinante para o sucesso ou fracasso das políticas públicas.

O fator cultural também deve ser compreendido como determinante até mesmo para a transformação do comportamento de determinados agentes da área social. A primeira experiência brasileira de “acolhimento” data de 1551, quando os jesuítas fundaram a primeira casa de recolhimento de crianças. O objetivo era “afastar as crianças negras e índias da má influência dos pais”. Portanto, partimos de uma herança nefasta que evoluiu por caminhos nada animadores e que desaguaram na estupidez do modelo desumano da FEBEM. Uma radical mudança de paradigma é, portanto, o que está em pauta. Não podemos esquecer que os jovens infratores da classe média e da burguesia passam ao largo das políticas públicas aqui tratadas. Acabam absorvidos pela imperativa hipocrisia social e, no mais das vezes - celebrando a impunidade -, acabam retornando à cena na idade adulta, em relevantes cargos públicos. Portanto, que fique claro: estamos implantando uma política pública que traz como cenário um profundo e covarde preconceito de classe. As medidas sócio-educativas em meio aberto estabelecidas pelo SUAS/SINASE não podem ter sua aplicação dissociada de uma reflexão acerca da profunda desigualdade social. Não podemos incorrer no erro de pensar essas medidas tão somente na perspectiva de contenção dos ímpetos e conflitos dos meninos e meninas da periferia, sem qualquer reflexão acerca da violência à qual são submetidos desde quando nascem, desprotegidos de tudo. Portanto, não há como não tratarmos do assunto de forma articulada com as demais políticas públicas que tem na justiça o princípio fundamental. Isso, não se espantem, é fundamento ideológico neste início de milênio. É necessário que este aspecto também seja levado em consideração pelos demais componentes da rede de proteção deste imenso trapézio que cerca o interesse público.

Os processos de reeducação, portanto, não irão surtir efeito se não oferecermos perspectivas, se não nos pautarmos pela universalização dos direitos de cidadania. Seja no âmbito das políticas habitacionais, das políticas de saúde, de cultura e de educação mais especificamente. De cultura? Sim, porque estamos tratando aqui, fundamentalmente, da necessária mudança de mentalidades. Este é o papel da transversalidade de uma política pública de cultura transformadora. Comecemos pela capacidade de reflexão dos profissionais da área, pelo comprometimento dos gestores e dos demais agentes públicos, pelo envolvimento dos movimentos no controle social e pela responsabilização das grandes corporações, passando pela mudança de hábito da mídia, com sua racionalidade apontada para o lucro imediato das imagens e das palavras. Afora isso, sobram os riscos do principal contraponto que é a zona de sombra do fascismo propondo a redução da maioridade penal como solução matemágica. A história nos mostra com muitas evidências que os confinamentos já experimentados não passam de uma espécie de industrialização em massa do crime. Ou seja: a sociedade dos porcos ainda se arriscará continuar chafurdando na lama para camuflar suas responsabilidades. Estranho que esse debate ainda esteja vivo num tempo em que o crime organizado transformou os presídios em privilegiados núcleos concentrados de operação. Esperamos um pouco mais do mundo. Por isso seguimos em frente, referenciados no que ainda virá, mas que possui enraizamentos inconfundíveis na luta e no pensamento de quem pretende ir muito além dos códigos abertos do conhecimento e de comemorações carnavalizadas da tragédia social que vivemos.



*SUAS – Sistema Único da Assistência Social

SINASE – Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo

sábado, 22 de maio de 2010

A angústia do mundo numa bolha de sabão.


Lau Siqueira
O desafio das políticas públicas neste início de século nos remete a nossa capacidade de reflexão acerca das práticas empreendidas, dos diálogos travados e da nossa imensa capacidade de compreender a necessidade de uma ação planejada, em rede, e que se propague infinitamente. Uma utopia possível? Talvez algo bastante além disso. Logicamente que falo aqui de uma radical mudança de hábito do poder público e dos movimentos sociais no trato com as políticas públicas. Tanto no que tange às relações de interesse político quanto nas relações de poder, mais propriamente, estabelecidas cada vez que um agrupamento de reúne periodicamente pensando, equivocadamente, se tratar de um grupo. Jean Paul Sarte é muito claro ao exemplificar as diferenças. Para Sartre, basta um grupo de pessoas esperando um ônibus na parada para conceituar agrupamento. O grupo é a possibilidade de um diálogo positivo dessas mesmas pessoas em torno de um interesse comum e coletivo. Por exemplo, protestar contra o imenso atraso do Expresso 2222 da Central do Brasil que partiu direto de Bonsucesso pra depois do ano 2010.

Recentemente participei de um debate acerca da violência sexual contra crianças e adolescentes. Um debate que deveria interessar milhares de pessoas, não reuniu uma centena. Por quê? A resposta é relativamente fácil. Há um relativo cansaço acerca do jogo de cena que muitas vezes se impõe como ação de política pública. Há uma certa incredulidade quando escutamos altas autoridades, como no lançamento do projeto Vira Vida, dos Sistema S, afirmando que não existe turismo sexual na Paraíba. É como se não devêssemos nos preocupar por estarmos no estado que ocupa o terceiro lugar no ranking nacional da exploração sexual de crianças e adolescentes, perdendo apenas para Pernambuco e Rio de Janeiro. Uma vergonha que preocupa os que desejam um mundo mais afinado com os valores humanos. Estamos, na verdade, diante de um jogo de cena que passa pelas vaidades pessoais e pela submissão de organismos públicos aos interesses localizados de segmentos alheio aos trilhos e ao trem da história. Particularmente, não gostaria de fazer parte dos elos cansados desta cadeia improdutiva da desesperança. O cotidiano não permite. Até porque neste imenso jogo de interesses que cercam a verdadeira colcha de retalhos que cobre o chamado interesse público, existe uma responsabilização, sobretudo, cidadã.

Sinto-me bastante a vontade para criticar os movimentos sociais porque neles tive a minha formação e para eles voltarei antes de virar poeira de vento. Sinto-me também a vontade para exercer criticamente um cargo público pelo mesmo e bom motivo. Na verdade, a carência de quadros, tão visível na aplicação das políticas, não é mais que no resultado do jogo de interesses e vaidades que perpassa a relação dos entes envolvidos neste cenário pouco animado – mas, ainda bem, não de um todo desanimador. Se a falta de quadros nos movimentos sociais é bastante visível por termos ainda os mesmos “melhores quadros” de vinte anos atrás, também é verdade que no olho do furacão desses movimentos existe uma imensa guerra de vaidades que sufoca as possibilidades de surgimento de novos quadros. Isso tudo se reflete nas mazelas da administração pública, onde a profissionalização ainda é um tabu a ser superado. Afinal, a luta pelo poder e, principalmente, pela partilha do poder, não se dá apenas no âmbito partidário.

No exercício das políticas públicas, mais propriamente na administração pública exercida nos três níveis (municipal, estadual e federal), confesso que houve um inegável avanço (com ampla contribuição dos movimentos, reconheçamos) em termos de amparos legais e de vontade política de implementação. O governo Lula, com todos os erros cometidos, fez a diferença neste sentido. É inegável essa constatação. No entanto, a consolidação das políticas públicas ainda padece de uma radical mudança de cultura administrativa simbolizada pelo paletó na cadeira vazia. O parasitismo eleitoral ainda é uma sombra rondando os cargos comissionados em todos os níveis e desníveis. Afinal, foi a presença ausente do poder público durante décadas e décadas que permitiu, por exemplo, que o tráfico ocupasse o lugar do Estado nas periferias do mundo. Muito especialmente deste nosso sofrido mundo latino. Esse mundo que late aqui em João Pessoa, em comunidades como Taipa, Porto de João Tota e outras. Pelo visto, não estamos ainda perto de uma saída porque sempre que há uma luz no fim do túnel, parece, vem uma locomotiva e apaga a possibilidade de seguirmos em frente. Dominar os freios e a aceleração da locomotiva é o nosso desafio cotidiano.

Não pretendo com isso determinar a desesperança. Muito pelo contrário. Apenas desejo lembrar que a esperança que acredito é aquela preconizada por David Cooper: “Não existe esperança. Existe uma luta. Esta é a nossa esperança.” E a minha esperança vai sempre ao encontro dos que lutam contra a impunidade que ainda coloca em xeque o jogral de interesses que se esconde por debaixo das togas e dos gabinetes de administração do Produto Interno Bruto, seja na área pública ou privada. Minha esperança segue em busca dos que ressurgem todo dia do topo de uma indignação que nada mais é que o mais profundo alicerce da cidadania acometida de lágrimas lúcidas. O cumprimento das leis está submetido aos interesses políticos. Os interesses políticos estão submetidos ao interesse econômico. E assim, “meus heróis morreram de over dose e meus inimigos estão no poder.” Nos governos, estão bons e maus executores, mas, reconheçamos que o poder não mudou de lugar nos últimos quinhentos anos de história brasileira.

Para seguir em frente, um único combustível é necessário: o tesão de tomar o caldo de batatas das nossas incapacidades, refletir sobre a desesperança dos que não vislumbram sequer a luz da locomotiva ilusionista das mudanças radicais... E seguir em frente, “adelante siempre”, endurecendo sem perder a ternura jamais, desacomodando os acomodados. Dignificando os indignados. Tudo dentro dos limites sempre esgotados da paciência coletiva. Pensando que cada um e cada uma de nós, respira o mesmo ar rarefeito das mesmas impossibilidades que ressurgem a cada paradigma que se esvai pelo ralo das emoções fugidias, dos que não pediram para nascer e muito menos para estar expondo suas inocências nas rotas mais violentas da sociedade contemporânea. Se é verdade que avançamos, também é verdade que temos um longo caminho. Porque felicidade só vale quando repartida. Já estamos cheios das alegrias efêmeras e das encenações que buscam a mídia, não para responsabilizá-la quando às suas culpas no quadro das imutabilidades que precisam ser destruídas. Mas, no amparo de certas vaidades impúberes que precisam ser reconhecidas e desmascaradas para que o mundo avance em nossas aldeias, para um patamar menos injusto. É como se nossas angústias de mudar nossas pátrias comuns estivessem cercadas pela delicadeza de uma bolha de sabão imersa em valores visíveis e invisíveis. O jeito é seguir em frente. Manter a firmeza dos princípios e colher as certezas do infinito.

domingo, 9 de maio de 2010

As representações sociais da decadência e a resistência cultural na Cidade das Acácias

"É preciso estar atento e forte. Não temos tempo de temer a morte." (Caetano Veloso)


 
Lau Siqueira

Em outros momentos históricos talvez provocasse maior frenesi a proposta da vereadora Elisa Virgínia de submeter as ações de arte pública na cidade de João Pessoa à Câmara de Vereadores, transformando-a em departamento de censura. Cazuza até que tinha razão quando berrava “o tempo não pára.” Mas, parece que parou na Idade Média para alguns portadores de profecias deformadas, denunciados já na antiguidade pelo mestre Jesus Cristo. O fato me trouxe à memória alguns versos do famoso artista popular nordestino, o Cego Aderaldo: “Quem nasceu cego da vista/ E dela não se lucrou/ Não sente tanto ser cego/ Como quem viu e cegou.” A sabedoria milenar do cantador nos mostra a necessidade de vermos as coisas como elas realmente são.
 
Sem demérito algum aos que foram eleitos para tratar dos assuntos gerais da cidade, me pergunto se haveria condição real para um mergulho no conhecimento sobre arte moderna, arte contemporânea, arte pública, história da arte... E assim, minimamente informados, os vereadores pudessem dedicar um tempo precioso ao exercício da análise estética. (Aliás, um trabalho nada legislativo.) Logicamente que não! Todavia, o que ainda preocupa é o fato de uma pessoa com mentalidade tão desvirtuada, conquistar uma relevante representação social. É preocupante sabermos que o povo pessoense é representado, também, por esse patamar de incivilidade. A provocação que deixo aqui é a seguinte: o que leva um cidadão ou uma cidadã a votar em alguém que pensa de forma tão desfigurada?

Por outro lado, tenho observado com indisfarçada alegria a reação dos artistas e dos consumidores de cultura da cidade. Reações justas e conseqüentes. É tranqüilizador quando se percebe que a sociedade está atenta aos desmandos. Na verdade, a vereadora ultrapassou todas as barreiras do bom senso e está recebendo o troco. Praticou um ato tendencioso tentando ludibriar setores da sociedade no jogo político conservador. Misturar política com religião tem sido o mais vergonhoso ato de desrespeito à diversidade das crenças. Afinal, o Estado é laico. Mesmo que em épocas eleitorais, muitos pais e mães de santo, padres, padrinhos e pastores caminhem juntos no gingado dos interesses pela hegemonia da sociedade. A vereadora, neste sentido, cumpre integralmente os ritos da decadência. Não sabe que os evangélicos já não se comportam como um rebanho. Como todo o povo, cada vez exercitam melhor a cidadania e repudiam o oportunismo patológico de algumas representações que insistem em tratar os interesses coletivos de forma tão obtusa. Concluo, portanto, que a vereadora Elisa Virgínia bebeu na taça do ridículo e dançou até cair.

Lembro que há poucos anos, quando a Prefeitura colocou a internacionalmente reconhecida obra do paraibano Jackson Ribeiro, o Porteiro do Inferno, no giradouro da Universidade Federal da Paraíba, também ocorreram tentativas esdrúxulas para extrair dividendos políticos de uma polêmica vazia. Na época, representando a Fundação Cultural de João Pessoa, fui obrigado a intervir num programa de rádio para explicar que a uma obra abstrata, como o Porteiro, não poderia jamais ser dada qualquer conotação religiosa. A comunidade artística também reagiu e, felizmente, a polêmica não se sustentou. O que assusta, entretanto, é a condição a que foram alçadas certas pessoas em termos de representatividade social e política. O que preocupa é que uma pessoa como a vereadora Elisa tem a responsabilidade de analisar outras matérias de extremo interesse da cidade. Portanto, estamos ainda a mercê.

Em derradeira análise, observamos que numa sociedade que transforma as piores tragédias em espetáculos midiáticos é normal o ridículo virar notícia. Ainda chegará o dia que uma matéria assim não passará nos critérios editoriais de qualquer jornal de bairro ou blog sensacionalista. Este dia, deverá coincidir com a cobertura da dignidade das pessoas que vivem nas comunidades periféricas. Por exemplo, Mandacaru tem aparecido na mídia apenas como um bairro violento. Esquecem que se trata de um dos principais pólos de cultura popular da região. A notícia, geralmente, estabelece hierarquias de importância na construção das mentalidades. A submissão é uma marca da pobreza. As mentiras sociais, colocadas diariamente pelos (de)formadores de opinião como a vereadora, no entanto, já não encontram o eco que desejariam. Ainda bem. A cidade está mudando. O país está mudando. O mundo está mudando. Tudo porque estamos aprendendo a reagir com veemência contra os desacordos de uma nova ordem global. O mundo pode sim ser diferente. Depende sempre das nossas reações. Mentalidades oportunistas como a da vereadora pessoense, ainda bem, já causam mais riso que revolta. A comunidade artística, como se diz, deu uma merecida peia nos signos da ignorância travestida de moral. Como sempre diz Pedro Osmar, “arte ainda que tarde”. Tipo assim: estou gostando de ver a comunidade atenta e forte.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

O mercado do livro e o silêncio das gerações

Lau Siqueira

Em 2007 foi realizada a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, coordenada pelo Professor Galeno Amorim. Os resultados foram surpreendentes. Por exemplo, o escritor mais lido no Brasil é Monteiro Lobato e não Paulo Coelho. Entre os 30 mais lidos, encontramos Drummond, Raquel de Queiroz, Guimarães Rosa, Mário Quintana, Machado de Assis. Em suma, o melhor time da história da Literatura Brasileira. A Poesia chega a impressionar porque ocupa o terceiro lugar no ranking dos gêneros mais lidos e emplaca o poeta Vinícius de Moraes no quinto lugar entre os autores, de todos os gêneros, mais lidos. Em algumas regiões, como a região do Pajeú, em Pernambuco, a Poesia é o gênero de maior penetração. Logicamente que encantando com seus segmentos mais populares como o cordel e a cantoria de viola.

Ocorre que o mercado não responde no mesmo tom. Basta verificar as vitrines das livrarias e, pior, suas prateleiras. Na última sexta-feira, dia 9 de abril, estive em Brasília participando de uma atividade de trabalho e na hora do almoço procurei o shopping mais próximos para não ser esquartejado pelos preços do restaurante do hotel. Entre as lojas, havia uma filial (ou franquia, não sei) da Livraria Saraiva. Fiquei parado diante da vitrine, impressionado exatamente com o contraste em relação à pesquisa do Professor Galeno. Muitos livros sobre Chico Xavier, livros com títulos bisonhos que sequer busco na memória para uma citação neste momento e alguns best sellers, tipo Sidney Sheldon. Na vitrine inteira, um único título de Gilberto Freire. Não difere, aliás, das demais vitrines letais para a boa literatura.

Dentro da loja me senti ainda mais desconfortável. Na estante de literatura estrangeira, o espaço concedido para a poesia internacional não passava de um palmo. Do outro lado, a poesia brasileira recebia o mesmo espaço. Somente os monstros sagrados tipo Fernando Pessoa e Carlos Drummond, para me deter na nossa pátria nossa língua, interbrasileira. No mais, os livros técnicos que toda livraria possui e um lixo insuportável. No canto, com decoração atrativa para as crianças, livros infantis a peso de ouro. Uns razoáveis outros intragáveis para o menino que ainda sou. No entanto, uma isca poderosa para o consumo dos pequenos e das pequenas.

Fico impressionado com os rumos que vem tomando o mercado do livro no Brasil. Um mercado, diga-se de pronto, com uma lucratividade crescente, com números que impressionam. Muitos livros que não podemos crer que sejam recomendáveis. Na verdade, a grande maioria. Mas, o que mais impressiona é que as grandes feiras e as bienais também apontam para esta tendência. Lembro que em 2008 estive na Bienal de Fortaleza e fiquei desanimado com a quantidade de lixo espalhado nos stands. Também ano passado, na Feira do Livro de Porto Alegre, notei que o gigantismo da feira obedecia a mesma lógica. A Feira do Livro já não era a mesma de 25 ou 30 anos atrás, quando se encontrava Proust, nos balaios, a preço de bananas, em edições da lendária Editora Globo, com tradução de Mário Quintana.

O meu espanto gerou um artigo que acabou sendo contestado por alguns professores e professoras de Porto Alegre. Eles confundiram o meu espanto com o gigantismo da Feira, com alguma atrocidade contra uma cidade que me abrigou por muitos anos e com a qual ainda hoje mantenho um caso de amor. Os debates nos comentários do “Pele Sem Pele” acabaram desvirtuados, infelizmente. Pouco se refletiu sobre o que eu realmente disse, preocupado com o impacto da Feira do Livro na vida cultural e na formação cidadã da população da capital dos pampas. Confio nas palavras de Roland Barthes quando afirma que “a literatura contém muitos saberes” e justifico meus argumentos quando vou discutir políticas de leitura. Afinal, um bom romance, muitas vezes, traz um conteúdo antropológico, geográfico, histórico, ético. É tanto conhecimento contido em certas obras que me ponho a pensar o que gera nas pessoas a leitura de uma Zibia Gasparetto, por exemplo.

Não consigo calar sobre o que parece uma degeneração influenciando gerações inteiras. Afinal, creio que da mesma forma que a leitura de um Alejo Carpentier, um Jorge Luiz Borges, um João Gilberto Noll enriquece a alma leitora, não é possível que títulos como “Casais que enriquecem juntos” não sejam concebidos apenas para difundir a Lei de Gerson, num refrão ideológico dos piores dias da ditadura militar. “É preciso levar vantagem em tudo, certo?” Um atentado ético que me faz pensar se, realmente, a ditadura realmente acabou. Claro que não! Vivemos hoje a ditadura do mercado. No caso do livro, principalmente porque são raras as livrarias que tratam os autores como seres humanos. Muito especialmente os independentes que deixam lá seus livros em consignação. Lembro do poeta Chacal dizendo que deixava seus livros nas livrarias e depois “era recebido à dentadas pelo livreiro”.

Infelizmente a maioria dos escritores odeia discutir esse tema. Mesmo assim, todos tentam sobreviver aos apelos da eternidade, publicando na maioria das vezes com enorme sacrifício e, praticamente, sem muito resultado do ponto de vista da reparação dos custos. Mas, acho que já começa a se fazer sentir uma mudança de atitude. O escritor, no mais das vezes, gosta de se esconder na pele do intelectual. São raros os que se assumem profissionalmente como tal. A maioria é jornalista, professor universitário, tradutor, etc. Lembro uma vez iriam publicar poemas meus em uma revista e eu assinei apenas como poeta. A pessoa responsável pela edição me perguntava: “Mas, apenas poeta?” E eu respondia: “E você acha pouco?”

A brincadeira guarda um punhado de verdades ocultas e alguma mudança no final do túnel. Por esses dias, a AGES – Associação Gaúcha de Escritores estará discutindo a profissão do escritor. Refletindo sobre os entraves do mercado para o escritor gaúcho contemporâneo. Guerreiros como, o poeta Ademir Assunção, exigem que as políticas públicas para o livro contemplem também o escritor. Mas, parece que isso ainda não comove muito o poder público e, principalmente, os dragões do mercado que declaram desespero ao constatar queda nas vendas de um ano para o outro, sem divulgar o quanto engordam suas contas independentemente das lamúrias dos caras e das minas que habitam o ponto de partida da cadeia produtiva do livro. Parece mais que o empenho dos gigantes do mercado do livro é destruir de forma acelerada a Amazônia, derrubando árvores raras para publicar livros de conteúdo ralo.

Esse, entretanto, é um assunto do qual não podemos abdicar. Principalmente, porque muitos escritores não conseguem ainda pensar no fato da cidadania do escritor enquanto um profissional que gera economia, mesmo quando publica isoladamente e não vende um único livro. Afinal, seu esforço e suas economias geraram um investimento que irá, pelo menos, salvaguardar do abismo e do desemprego os funcionários da gráfica. Portanto, diante do apogeu do livro (e não da literatura) enquanto objeto de consumo, se faz sim necessário que escritores e bons leitores reflitam sobre o lixo do mercado e as suas implicações sobre a evolução do pensamento contemporâneo. É hora de reagir, de pensar coletivamente sobre o fator leitura/mercado. Antes que sejamos alijados da história da humanidade por tamanha inanição, por permitirmos que a gula da mediocridade resolva os desejos das novas gerações de acomodados.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Que a Paixão nos Oriente. (Uma breve leitura do espetáculo A Paixão da Sagrada Família)

Um elenco homogêneo em cena. (foto: Jeovan de Oliveira)


Lau Siqueira

Quando ainda dirigia a Fundação Cultural de João Pessoa, em 2008, lembro de ter recebido um telefonema do jornal Diário de Pernambuco que estava preparando um caderno especial sobre as encenações da Paixão de Cristo em todo o Nordeste. Logicamente que fui às bancas saber o que haviam publicado. Surpreendi-me positivamente quando percebi que a encenação de João Pessoa era colocada em destaque, juntamente com a de Recife e a de Nova Jerusalém. Comecei, então, a ter a dimensão do que a encenação paraibana da Paixão alcançara em termos de destaque regional, em tão pouco tempo. Sucesso de público e crítica em todas as encenações.

Na verdade, a Paixão de Cristo, a partir de 2005, passou a ter uma proposta muito definida. O teatro paraibano passou a ser a maior estrela. Não mais os globais de talento duvidoso e o público espremido e em pé. Agora todas as pessoas assistiam todas as cenas confortavelmente sentadas, com um olhar especial quanto à acessibilidade para portadores de necessidades especiais e terceira idade. Também, afirmava-se diante do grande público pessoense, a qualidade do teatro local e uma concepção de espetáculo totalmente local. Cada ano uma encenação diferente, selecionada através de edital público. Uma democratização à qual os artistas não estavam ainda acostumados.

Este ano, especificamente, creio que a Paixão de Cristo patrocinada pela FUNJOPE superou os seus próprios paradigmas. Uma proposta cênica bastante ousada do Grupo Graxa de Teatro, com direção e dramaturgia competente de Antônio Deol e direção musical de Marcílio Onofre. Destaco ainda a cenografia e a iluminação com rigor matemático e sensibilidade aguda de Jorge Bweres e a participação dos maquiadores Ailton Gomes, Dinart e Júnior Mermaid. Eles fizeram a diferença, com certeza. Tudo isso trouxe para a arena do Ponto de Cem Réis um espetáculo extremamente audacioso que, mais uma vez, transgrediu a geografia do oriente médio, não mais em direção ao sertão nordestino. Era o país dos samurais contando a história mais antiga e mais encenada de todos os tempos.

Como nos anos anteriores, a direção musical tem se mantido num destaque especialíssimo. Marcílio Onofre, o jovem maestro paraibano, confirma a tradição de uma cidade que se transformou no principal pólo brasileiro de produção de música erudita contemporânea. Uma produção que dialoga com a tradição, mas também se permite a invenção, incorporando elementos da música eletrônica, oriental, ocidental e popular universal, quando necessário. Tudo imensamente impregnado verdade e reinvenção do sublime. Marcílio, que ainda não completou 30 anos, integra uma legião de talentos do porte de um Eli-Eri Moura, Didier Guigue, Luiz Carlos Otávio e outros integrantes da COMPOMUS que se constitui hoje na principal grife da música erudita brasileira.

Penso que não é tarefa das mais fáceis criar circunstâncias estéticas originais alicerçadas na mais popular estória que a humanidade já produziu em todos os tempos. A ousadia de Antônio Deol, entrementes, permitiu que se conjugasse a universalização de um tema religioso, com elementos da tradição e da experimentação permanente, necessária a afirmação do bom teatro. A cultura oriental dialogou barbaramente com a proposta cênica do grupo Graxa. Talvez um dos momentos de maior tradução desta verdade, tenha sido a beleza com que foi concebida, por exemplo, a cena da Santa Ceia. Também a permanência do Jesus Menino e seus parentes coadjuvantes, na memória geral do espetáculo.

A feição religiosa tornou-se mero elemento de composição do processo criativo. Como diria Fayga Ostrower, “”cultura são as formas materiais e espirituais com que os indivíduos de um grupo convivem, nas quais atuam e se comunicam e cuja experiência coletiva pode ser transmitida através de vias simbólicas para a geração seguinte.” Creio que a transcendência em todos os sentidos alcançada pela encenação deste ano, nos permite uma análise bem mais decodificada, até mesmo sobre o fator cênico como elemento de transgressão permanente das culturas e dos costumes. Ao incorporar elementos audiovisuais muito bem instalados em cena, o Grupo Graxa inverteu a idéia de que seria o cinema a arte de maior profusão de linguagens. Talvez o assombro da vivência de um voyeur nos permita afirmar que o teatro, pelos diálogos que se permite, tenha assumido o status de maior plenitude entre as artes. Pelo que incorpora e pelo que escancara em termos de perspectiva.

Não sei como seria hoje um caderno especial sobre as encenações da Paixão de Cristo em algum jornal brasileiro ou mesmo de fora do país. Mas, certamente, a Cidade das Acácias passou a ser uma referência inventiva das mais importantes para grandes espetáculos de rua. Logicamente que pelo alto grau de profissionalismo alcançado pelo teatro paraibano e certamente, também, porque o Curso de Teatro da Universidade Federal da Paraíba já começa a transbordar pelos palcos da cidade, com uma qualificação que não é mais apenas produto do talento e da labuta individual. Depois de um espetáculo como este, lotando a arena do Ponto de Cem Réis, podemos concluir que é possível ir ainda mais longe. Seja individualmente, seja coletivamente.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Pensando sobre estética e ética em frente ao túmulo de Virgínius da Gama e Melo.

Por Lau Siqueira

Sábado passado acompanhei o sepultamento de um vizinho e, na espera do cortejo, acabei descobrindo o jazigo perpétuo da família Gama e Melo, onde está sepultado o poeta e intelectual paraibano Virgínius da Gama e Melo, falecido em 1975. Nome respeitado historicamente nos meios pensantes da Paraíba, Virgínius da Gama e Melo acendeu uma polêmica que ainda hoje movimenta até mesmo as estratosferas políticas, com reações raivosas dos segmentos mais conservadores da cidade. Na verdade, tornou-se até internacionalmente conhecida a magnífica obra de Jackson Ribeiro, “O Porteiro do Inferno”, atualmente localizada num dos dois principais anéis de acesso à Universidade Federal da Paraíba. Apesar de se tratar de uma obra abstrata que justamente por ser abstrata não traz uma mensagem, “O Porteiro” vem sendo alvo de sucessivas e patológicas sanhas conservadoras. Alvo de ataques de descarada hipocrisia. Alguns segmentos buscam, abertamente, dar uma conotação de política eleitoral (usando a via da religiosidade) ao debate estético que a obra propõe. Que se entenda definitivamente: não há feição religiosa na obra mais conhecida deste grandioso artista paraibano de Campina Grande, Jackson Ribeiro. É uma obra de vanguarda, abstrata.

Que não se aprecie arte de vanguarda até se admite. É normal, dado o caráter inevitavelmente provocativo de um tipo de arte que questiona a beleza em um mundo torto e injusto. Mas, buscar o sentido religioso para a análise estética, com objetivos claramente eleitoreiros é de um oportunismo patológico que não cabe mais no nosso tempo. Este tem sido o comportamento de alguns segmentos “deformadores de opinião” que prestam um desserviço ao desenvolvimento social e econômico do empobrecido Estado da Paraíba. Os absurdos que envolvem a existência consagrada da obra mais conhecida de Jackson Ribeiro é bastante emblemático. Ocorre que o título original era “O Homem Astronauta”. Numa observação mais atenta, você verá que se parece com os astronautas do projeto Apolo, que levou o homem na Lua, numa época pouco anterior a concepção da obra. Tudo ia muito bem, até que o poeta Virgínius decidiu, jocosamente, rebatizá-la como “O Porteiro do Inferno”. Pior (ou melhor): o apelido pegou mais forte que o nome de batismo. Desde então se iniciou uma injustificada perseguição não à memória de Jackson, também já falecido, mas à existência da obra em espaço público. Há décadas, acabou sendo arrancada do seu lugar original, com a desculpa infame de estar localizada nas proximidades de uma Igreja. Sabemos que os fiéis evangélicos não cultuam imagens sagradas. No entanto, estranhamente, alguns pastores parece que abominam uma obra abstrata. Seria problema dos evangélicos? Claro que não. O problema está no nível de desinformação ao qual o povo é submetido, por “deformadores de opinião” que na verdade apenas querem dar sustentação às posturas mais conservadoras e inadequadas à evolução dos tempos e a democratização da informação e da sociedade.

Recentemente, fiquei bastante estarrecido com declarações públicas do deputado federal Walter Brito Filho contra as obras de arte que estão sendo espalhadas pela cidade, pela Prefeitura, fruto de um edital lançado pela Fundação Cultural de João Pessoa, hoje ao comando do grande Chico Cesar. Numa ação fruto de um edital em homenagem a um dos maiores artistas plásticos brasileiros de todos os tempos, Jackson Ribeiro.Um jovem com idéias medievais o tal deputado. Não deve saber que Jackson foi um ícone da efervescência estética brasileira dos anos 60 e 70, com uma fina e segura influência da arte concreta e de outras linguagens futuristas. Um artista antenado com o seu próprio tempo e com o futuro da nossa cidade. Sua obra mais conhecida por aqui se referencia nacionalmente e até internacionalmente, mas é tristemente banida pela ignorância de alguns deformadores de opinião, como o deputado Walter Brito Filho.

Em plena era da comunicação, com novas mídias aflorando a cada dia, este deputado demonstra um enorme desconforto ético ao querer misturar arte com religião e, pior, com política partidária. Sabemos que interesses estão por trás disso: desgastar a imagem do ex-prefeito e pré-candidato ao Governo do Estado, Ricardo Coutinho. Afinal, é a política que movimenta os processos econômicos. É na política que os interesses populares confrontam os interesses dos grupos econômicos locais que, nos casos mais agudos, são de formação familiar e oligarca. Na verdade, ignorante confesso quanto às questões estéticas o deputado me faz lembrar o pensador Jürgen Habermas quando afirma que “a economia política nasce da filosofia moral”, no livro “A ética da discussão e a questão da verdade”. Logicamente, não vamos crer que a rejeição do deputado à Arte Pública venha de princípios religiosos, uma vez que ele ,como outros oportunistas descarados, coloca a religiosidade no seu curriculum político. Como se os cidadãos e cidadãs da cidade de João Pessoa, evangélicos ou não, não tivessem a capacidade de discernimento que o ralo entendimento do deputado propõe. O que está em jogo, entenda-se, é uma coisa chamada “economia política”

Mas o foco principal continua sendo Jackson Ribeiro e seu consagrado “O Porteiro do Inferno”.Uma obra magistral colocada pela Prefeitura de João Pessoa no acesso à Universidade Federal da Paraíba. Sabemos que “O Porteiro do Inferno” foi um “apelido” para uma obra que se chamava originalmente de “O Homem Astronauta”. Uma brincadeira do poeta e intelectual paraibano Virgínius da Gama e Melo. Assim como com algumas pessoas, o pseudônimo inventado pelo poeta ficou mais conhecido que o nome. Quando dizem que o nosso povo precisa de Educação, concordo plenamente com os que acreditam que a Educação não é papel exclusivo da escola. No caso, os setores informados que detém parte significativa do capital pedagógico do Estado precisam se posicionar contra o que fede a feudo.