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terça-feira, 3 de novembro de 2015

Os idiomas da sonoridade e da imagem.

Por Lau Siqueira




Diz Antônio Cândido que “a expressão é o aspecto fundamental da arte e portanto da literatura.” No caso específico do haicai a expressividade se revela, principalmente, a partir da imagem sugerida. O discurso do olhar é determinante. Esta forma poética está entre as tradições culturais nipônicas que se espalharam pelo mundo. Já construiu, inclusive, uma tradição brasileira. Temos notícia da sua chegada ao nosso país  ainda no século XIX. Em 1908, a imigração japonesa trouxe junto o expressivo haikaista Shuhei Uetsuka (1876-1935). Mais tarde surgem os nomes brasileiros de Afrânio Peixoto e Guilherme de Almeida que, em diferentes épocas, propunham uma formatação tupiniquim. Através dos tempos vimos poetas como Leminski transitar com inventividade pelo haicai. Com versos rigorosamente metrificados, ou não, a verdade é que o Brasil foi produzindo seus grandes haicaistas: Millor Fernandes, Alice Ruiz, Teruko Oda, Goga e outros. Saulo Mendonça aparece com destaque ente os mais raros. Sem qualquer receio, podemos considerá-lo um dos grandes mestres do haicai contemporâneo brasileiro. Este conterrâneo de Jackson do Pandeiro desenvolveu um estilo muito particular ao configurar de forma harmônica a sonoridade do texto com a intensidade da imagem. Ao transitar entre o Português e o Espanhol, Saulo revela que seu fôlego está para muito além das linguagens.

O autor de “Luz de Musgo” (Editora Sal da Terra, 2008) há muito propõe a abolição definitiva do conflito entre a forma e o conteúdo do haicai. Pois ao radicalizarmos quanto a forma, deveremos lembrar que no Japão os haicais eram e são escritos em uma única linha vertical. Saulo não reduz o haicai a um “microsoneto”. Seus inventos surgem naturalmente a partir da sensibilidade e da exatidão das suas escolhas. Na sua capacidade de observar o mundo tecendo uma relação direta com as singularidades observadas. Ele vê, ouve,toca, semeia, cuida, colhe, escolhe e só então determina as cores da violeta. Como quem se espalha num milharal em busca de pássaros raros. Mesmo sabendo que, no máximo, somente poderá capturar o canto e a beleza  do voo.

Saulo é um observador de todas estações. Um poeta atento  a natureza mutante que se espalha pelas ruas. Se mostra vigilante quanto ao esplendor das urbanidades conjugadas nos costumes trazidos da aldeia. Sabe ouvir com a própria pele. Sabe sentir a invisibilidade do ar que respira. Aprendeu a ver o mapa das possibilidades com olhos de abelha. Vai direto ao néctar. Escolhe seus libelos como quem se liberta dos próprios sonhos  para as vivências extraordinárias no cotidiano. Seja na pancada estrutural da cultura de massas, na existência que demarca a vida entre a velhice e a infância, ou na sensualidade orvalhada de um amor que transborda. Certamente  nos batimentos cardíacos da árvore que cai e na eroticidade das memórias que reverberam no tempo. Enfim, Saulo é um profundo conhecedor das estradas que percorre. Por isso não se basta e recorre aos eixos do haicai para, somente então, transportá-lo por caminhos inventados. Sabe como poucos construir verdadeiros ensaios críticos onde o próprio poema responde todas as perguntas e formula tantas outras. Vai soltando desta forma suas liras nas paisagens tantas vezes diluídas da literatura. Entre os muitos belos poemas deste livro, um deles talvez revele com exatidão a sua percepção do humano enquanto elemento e instrumento da natureza: “Nasceu naquela casa./ Na janela vazia/ sua saudade se debruça.” Saulo Mendonça é dono de uma precisão cirúrgica na construção de seus textos. Sabe que a saudade se debruça na espera da manhã que virá. Ler seus haicais apenas uma vez é sempre impossível, pois são instrumentos de reinvenção da própria leitura.

*Prefácio do novo livro de Saulo Mendonça.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Anayde Beiriz e a memória perdida

Por Lau Siqueira

Um certo dia de 2007, na inauguração da Escola Municipal Anayde Beiriz, em João Pessoa, me deparei com um homem alto e sorridente que falou entusiasmado: “Lau, isso aqui é o Motiva do bairro das Indústrias!” Era o médico Marcus Aranha. Conversamos sobre a exposição dos trabalhos realizados pelos alunos da escola resgatando a memória de Anayde.  Conversamos sobre Anayde e sobre as lacunas da história oficial. Nosso contato maior sempre foi virtual. Nos vimos poucas vezes, mas guardávamos um pelo outro um respeito incomum. Marcus era um médico conceituado e gestor público zeloso, criativo e comprometido. Mas, também era, fundamentalmente, um pensador inquieto. Nunca escondeu seu fascínio pelos acontecimentos históricos de 1930. Principalmente aqueles  ocultados pelos interesses dominantes. Seu desejo de restaurar a imagem pública de Anayde Beiriz nunca foi segredo. Não mediu esforços para isso. Ele sabia que estaria prestando um serviço enorme à memória coletiva e à história da Paraíba. Este foi, imagino, o impulso maior para a publicação deste livro. Ele não se conformava com as bravatas familiares, onde a história das lutas do povo nunca tem o seu lugar garantido.


Marcus Aranha mergulhou numa pesquisa apaixonada. Um verdadeiro e corajoso garimpo. Procurou a família de Anayde, pesquisou textos publicados anteriormente e construiu um olhar crítico para a restauração da verdade sobre a grande mulher que foi Anayde Beiriz. Entretanto sabia que a reconstrução da memória de Anayde somente ela mesma através dos seus escritos, poderia conduzir.  Sabia, por exemplo, que a leitura das cartas trocadas com o noivo Heriberto revelariam o verdadeiro caráter de Anayde. Uma mulher sensível, inteligente, amorosa e digna. Entretanto, também inquieta e conectada às vanguardas do seu tempo. Exatamente o oposto do que semearam seus detratores. Seja pela queima dos seus escritos. Seja pela sórdida campanha difamatória que sofreu.

Podemos considerar que Anayde foi vítima de algum tipo inquisição. Empurraram uma jovem de apenas 25 anos para o abismo de uma disputa de poder. A moça foi induzida ao desespero e consequentemente a um provável suicídio. Um fato, aliás, muito mal explicado e que pode muito bem ter sido, na verdade, um assassinato por envenenamento. Da mesma forma que, dias antes, a morte não muito bem explicada de João Dantas entrou para a história eivada de suspeições.


Os tempos eram duros. Era o início da ditadura caudilhesca de Vargas. É fato que João Pessoa foi assassinado por João Dantas. Mas, também é certo que as atitudes do presidente da Província eram inclinadas à violência. Por exemplo, o fato que impulsionou seu assassinato: a invasão do escritório de um inimigo político e a exposição da sua intimidade. João Pessoa era conhecido por mandar jagunços surrar seus desafetos. Aumentou em 500% os impostos. Nunca foi um herói cujos feitos justificassem a mudança do nome da capital do Estado. Seus correligionários, após a morte de Anayde,  agiam com fúria.  Contaminando inclusive a família daquela que foi a maior vítima dos fatos sangrentos que cercaram a Paraíba naquele período.

Sabendo da importância de Anayde Beiriz para a compreensão exata da história da Paraíba e do Nordeste, Marcus conduziu sua busca colhendo textos sobre “panthera”, sutilmente, desmistificando a maldição conservadora que durante décadas excluiu sua imagem da memória coletiva. Nos mostrou que a jovem Anayde sofreu, na verdade, um linchamento  por parte das forças reacionárias que dominavam a Paraíba naquela época e que continuaram dominando por décadas, Na verdade,  ainda hoje são parte significativa do poder.


Anayde Beiriz não estava só com suas ideias. Não podemos compreender seu pensamento sem uma análise mínima sobre a sua época. Aqui e ali algumas poucas mulheres tinham comportamento semelhante ao seu. Destaco a  figura de Patrícia Galvão, Pagu, também reveladora da existência de uma seleta vanguarda do pensamento feminista no Brasil nos anos 30. Eram tempos de rebeldia contra os valores dominantes. Principalmente para uma mulher que vivia antenada com as provocações dos movimentos modernistas também na literatura e nas artes. Não esqueçamos que as grandes revoluções estéticas que ainda hoje influenciam as artes, aconteceram exatamente entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX.


O autor se mostrou preocupado em recuperar das cinzas uma história que ainda não estava escrita. Seu ponto de partida foi a personalidade firme e do caráter de Anayde revelado com tanta clareza nas cartas ao noivo Heriberto. Ela contestava valores de uma sociedade ultra conservadora. Respirava um tempo que ainda não havia chegado, mas que sabia que não tardaria. Marcus Aranha nos mostrou também que a perversão reacionária e fraudulenta que conduziu os movimentos de 1930  ainda está viva e se revela em diversos momentos. Seja de forma aberta ou velada. No livro ele cita, por exemplo, uma entrevista de um neto do Presidente  João Pessoa - João Pessoa de Albuquerque Neto - no Jornal O Globo que a pretexto de afirmar seu ressentimento pela morte do avô chama Anayde de “vagabunda”, “moça pobre, filha de um linotipista”. Ou seja: ser pobre para este infeliz descendente do ódio é sinônimo de vagabundagem. Esqueceu que Anayde se formou professora com destaque aos 17 anos e exercia a profissão dignamente. Era professora em Cabedelo. O pai, linotiposta do Jornal a União era um homem honrado que fez todos os esforços para dar à filha a melhor educação. Isso nos revela o quanto o ódio aos Dantas se misturava com o ódio de classe. Na revista Manchete este neto de João Pessoa evidenciou mais uma vez seu ódio de classe fazendo a seguinte afirmação:

“Ora, meu Deus, tem tanta história de amor no Brasil para ser filmada! Por que pegar logo a de uma coitada,uma infeliz, muito humilde, que teve a  infelicidade de se apaixonar por um criminoso?”

Esta é uma síntese do pensamento que mudou o nome da capital da Paraíba para homenagear um político medíocre, conservador e de moral duvidosa. Alguém capaz de ordenar a invasão do escritório de um adversário político. Um homem sem qualquer  pudor jurídico. Ordenou de forma criminosa a exposição de correspondências íntimas  de duas pessoas no auge de uma paixão. Nada mais espúrio. Nada mais repugnante. Nada mais medíocre. Nada mais ofensivo à memória do povo paraibano que jogar esta verdade debaixo do tapete. A Paraíba ainda precisa se apropriar das suas verdades históricas. Para que não permaneça apenas a visão dos vencedores. A versão dos algozes de Anayde ainda prevalece, mas não sabemos mais por quanto tempo.


O escritor Marcus Aranha mergulhou com muita força e sinceridade na sua busca. Teve a sensibilidade e a coragem política de revelar estas faces tão dispersas ainda de uma mulher que continua referência nas lutas feministas no Brasil inteiro. Seja por sua ousadia, seja por sua sensibilidade. Ao publicar as cartas trocadas entre Anayde e seu noivo, Marcus deixou que a própria Anayde se revelasse por inteiro. Deixou também transparecer predominância do machismo nas cartas do apaixonado Heriberto. Ele nos revela, portanto, algo muito delicado para o desvendamento da personalidade de Anayde. Afinal são textos que não foram produzidos para  publicação. São documentos pessoais que revelam o caráter, a sensibilidade, a dignidade e a inteligência de uma mulher que dialogava com o que existia de mais avançado na sua época em termos de pensamento e de compreensão do mundo. Sua admiração evidente pelo Modernismo (apesar dos seus poetas preferidos não serem Modernos) ou pela defesa de bandeiras revolucionárias para a época, no mundo inteiro,  como o direito de voto das mulheres revelam uma mulher determinada e ousada. Aos que sempre buscaram minimizar a importância de Anayde Beiriz para a história da Paraíba, sugiro apenas isso: apresentem o nome de outra paraibana que, na época, defendia o voto das mulheres. Essa conquista hoje é uma realidade. Ignorar a vinculação com o nome de Anayde nesse contexto significa falsear a verdade e distorcer os fatos.


Para que se tenha noção de como se comportava a conjuntura mundial durante a mocidade brutalmente interrompida de Anayde Beiriz lembramos que em 1917 acontecia a revolução bolchevique na Russia. Em 1922 criava-se o Partido Comunista Brasileiro e acontecia a Semana de Arte Moderna. Ocorria, também, a primeira revolta tenentista, que culminou com a marcha da Coluna Prestes (1924/1927) que percorreu cerca de 30 mil quilômetros pelo interior do Brasil, passando inclusive pela Paraíba. Era um contexto histórico bastante complexo, com ameaças reais ao poder das oligarquias. A perspectiva de avanço das ideias comunistas eram reais.


Excluo de qualquer análise o ato oportunista e discriminatório da cineasta que dirigiu o filme Parahyba Mulher Macho. Excluo também o seu nome desta história e desta apresentação. Uma aberração que oculta ainda mais a verdade sobre uma mulher injustiçada no seu tempo. Esta cineasta cujo nome prefiro esconder promoveu uma verdadeira vulgarização da história da Paraíba - e não de Anayde.


POEMA DE ANAYDE BEIRIZ

Nasci
Nasceu
Cresceu
Namorou
Noivou
Casou

Noite nupcial

As telhas viram tudo

Se as moças fossem telhas

não se casariam.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Quando a nudez é a escama



O cenário atual da poesia brasileira é amplo, diverso e cheio de belas surpresas. Claro que não desconheço o turbilhão de versos sem poesia. Também não desconheço o cinismo da política literária dominante.  Entretanto jamais renego o prazer das boas descobertas. Logicamente que a garimpagem haverá de ser precisa e delicada. Não que estejamos chegando ao ápice, comparando com os grandes momentos da poesia brasileira. Nunca mais teremos um Drummond. Outro Décio Pignatari não há. Nunca mais João Cabral. Não cabem os comparativos neste caso. O que ocorre na cena atual é um certo transbordamento das somas e das subtrações. Gerações sobrepostas revelam a cena atual. Reconhecer as boas colheitas é, no mínimo, um bom sinal  de inquietação. As experiências da vida e da linguagem nos fazem lembrar Bachelard: “todo sonhador inflamado é um poeta em potencial.”

Luciana Queiroz sempre me pareceu uma sonhadora inflamada. Pessoa de intensidades e cores colhidas no olhar. Leitora exigente de livros e do mundo. Professora com visão humanista no infinito espaço de uma sala de aula. Uma sonhadora que ama transitar sobre as palavras. Sabe se deslocar entre elas e extrair de cada uma a sonoridade que diz tudo, mas esconde todo o resto. Alma liberta, soube construir um ritmo só seu. Pessoanamente, disfarça com maestria a escama das suas incertezas. Descobrir seus poemas foi um presente. Luciana tem  uma voz poética inconfundivelmente fêmea. Ela não se divide. Não se limita. É a integridade da existência expondo seus significados. Nocauteou minhas dúvidas acerca da existência de uma poética feminina - aliás, fêmea - estabelecida a partir da experiência humana e intelectual de uma mulher. Sabe cozer instantes para uma vida que não passa nas telas. Essa mesma vida que arde no espelho e depois vai para as ruas, para os becos, colher seus tentáculos.

“Sou rainha de esquecidas ilhas
Monto meu cavalo de penas:
Pégasus que Atena nenhuma domestica”

De que valeria o poema, se não para desnudar motivos? Sejam os motivos da linguagem, sejam sentimentos que diante do espelho pedem passagem. De que valeira o poema, se não para vestir a pele das palavras e cantar a versão dos sentidos? No mais, poesia é coragem. Viagem incerta. Principalmente se a condução do Pégaso vem num experimento de habilidades que se mostram inteiras e intensas no eterno aprendizado do verso. A poeta revela a força poética de ser mulher num mundo onde até a linguagem disputa espaço de gênero. Vai planando por sobre os milhos e as favas do estilo, inventando seu próprio caminho num rastro de muitas pegadas.

“Xícara de café
Sabonete
E cama que não divido com ninguém
Espaço que sobra
No vazio da falta”

Luciana faz poema também das suas lacunas. Mas, sabe como transgredir o sentido das coisas. O sabonete, a cama,o café. A presença forte das suas ausências. O espaço ocupado pelo vazio. Percebo aí um roteiro que se revelou com vigor na segunda fase do Modernismo brasileiro, quando a tonalidade existencial e social predomina nas ferramentas da sua metalurgia poética. Conforme explica Afrânio Coutinho, “a Literatura é um fenômeno estético”. Mas ele explica que é um fenômeno estético que dialoga até com o religioso num processo de transformação capaz de introduzir o elemento estético. Luciana sabe disso e faz dos seus aprendizados, das suas lutas e do revoar coletivo que vivencia, o motivo e a matéria prima da poesia. Instrumento de transbordamento e de consciência estética. Ela reconhece os conselhos de Rainer Maria Rilke em “Cartas a um jovem poeta”: “não se deixe enganar em sua solidão só porque há algo no senhor que deseja sair dela.”

“Volta

Deixa de vaidades bobas.
Já sei tudo de tua vida:
que tens outras
e que não queres ser de ninguém.
Teu trânsito de corpo em corpo
não me atrapalha a alma.
Quero você, seus significados,
sua conotação escancarada em minha língua.”

Luciana sabe transitar poeticamente por seus labirintos. Da mesma forma que a americana Bessie Smith tinha possibilidades para a ópera e cantava blues no início dos século XX, ela tem fôlego intelectual suficiente para velejar por outros mares. Tem lastro conceitual para sobreviver no ar rarefeito da poesia brasileira contemporânea. Mas, decidiu começar pelo desnudamento das escamas. Como quem avisa que a pele é só o começo. A nudez é só o começo. Este livro chega, pois, como um alerta. É como se ela dissesse o tempo todo: eu estou aqui, mas sou de longe e vou mais longe ainda. Um aviso de quem estava guardada em silêncios e se permite transbordar em gritos jamais silenciáveis.

Considero que estamos diante de uma bela descoberta. Uma poeta que começa sua caminhada surpreendendo pelo lirismo, pela consciência da linguagem poética e até pela pequena pancada inventiva do título “Nua sobre escamas”. Tem coragem de arrancar a própria pele para renascer na carne viva do inevitável.

“Flor

Se nunca te disse
ouso dizer
tanto faz
a flor do mandacaru
quanto o nome da rosa.”

É tempo de celebrar a boa descoberta. Cada poema deste livro não se esgota no último verso. Há uma atmosfera sugerida que pede mais. Mais poesia. Mais vida. Mais Luciana Queiroz nesse mundo de ausências consagradas e presenças diluídas.

Lau Siqueira

quinta-feira, 2 de julho de 2015

VOCÊ DEFENDE A REDUÇÃO DA MAIORIDADE PENAL? SABIA QUE NO BRASIL EXISTE PUNIÇÃO PREVISTA A PARTIR DOS 12 ANOS?

Por Lau Siqueira
Criminalizar a juventude negra e pobre não vai conter a violência. Isso todo mundo sabe. É o que está posto. O problema é essa mania brasileira de mídia vai com as outras. Nosso país se especializou em criar leis que nunca são cumpridas. A impunidade ainda é o nosso mal maior. Este é o fato. Aliás, nem as decisões do Congresso Nacional são cumpridas. Se decide uma coisa num dia e no dia seguinte se decide o contrário. Uma vergonha!
A verdade é que os interesses que se escondem por trás da redução da maioridade penal não revelam, por exemplo, que o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) já prevê punição para crianças a partir dos 12 anos de idade. O ECA já prevê seis tipos de punição: advertência, obrigação de reparar o dano, prestação de serviços à comunidade, liberdade assistida, semiliberdade e internação. Tudo de acordo com a gravidade da infração. Por que não se cumpre o que já está na lei? Por que o debate não é este e sim o da redução? Já se perguntou sobre isso?
Atualmente o adolescente pode ficar até 9 anos em cumprimento de medidas. Ou seja, pode completar a maioridade cumprindo estas medidas e, conforme a gravidade do crime, ingressar diretamente no sistema prisional. Aqui na Paraíba tem um exemplo clássico: o conhecido marginal Chapola entrou adolescente para o cumprimento de medidas e agora está no presídio. Passou direto. Não há em lugar algum do mundo dados que comprovem que a redução da maioridade reduza a criminalidade. O fato é que o "país da impunidade" cria leis avançadas,mas não as cumpre. Os presídios brasileiros são verdadeiras escolas do crime. O Brasil já possui a quarta maior população prisional do mundo. Como é que vamos aumentar essa população ao invés de diminuir? Infelizmente a opinião pública se comporta como um lote de gado obedecendo a trovoada do berrante midiático.
Se alguém acha que reduzindo a maioridade penal vai reduzir a violência, então que explique, argumente com base em dados e pesquisas, ao invés de ficar repetindo os políticos mais safados do país e uma imprensa que tem interesse direto na indústria da violência. Um negócio lucrativo que alimenta o luxo de muito esperto Brasil afora. Reduzir a maioridade penal é cuidar do efeito e consolidar o abandono da causa. O abandono da infância pobre é o motivo maior da criminalidade.
As pessoas estão defendendo a redução da maioridade penal como solução mesmo sabendo, no fundo, que não vai mudar nada. Vamos continuar assistindo a barbárie nas ruas e fingindo que está tudo resolvido. Ou por acaso você que defende a redução como solução para a violência, vai manter a posição depois de descobrir que nada mudou? Mas, o que fazer ? Pensar é incômodo demais para algumas pessoas. Melhor deixar que alguns políticos e jornalistas carniceiros pensem por nós. Tou fora!

quarta-feira, 10 de junho de 2015

COMO DIZIA GREGÓRIO DE MATOS...

Por Lau Siqueira
Esta semana ouvi o locutor de uma rádio, espantado, anunciar o cachê do Padre Fábio de Melo no Maior São João do Mundo. Também fiquei surpreso: 180 mil reais. No meu tempo Padre só recebia o dízimo. Mas, o valor do cachê não me espantou tanto. Isso é fruto de uma relação fria de mercado, onde a fé “costuma faiá”. O preço é este porque tem quem pague. Me espantou muito mais o miolo da conversa. O assunto era o “redimensionamento” da programação oficial, já anunciada, de onde excluíram artistas como Lucy Alves e Zé Ramalho. Paraibanos da gema e plenamente identificados com a tradição junina. Ora, o cachê do Padre pagava Zé e Lucy com sobras. Se era para economizar, o que justificou a escolha? O fato é que a programação do Maior São João do Mundo vem pisando na bola faz tempo. Atrações que não possuem qualquer identidade com a tradição junina estão “anabolizando” o evento. Mas, isso não é tudo.
Estamos mesmo vivendo tempos bem estranhos para a arte e para a cultura no Brasil. Temos avanços consideráveis, mas as derrotas são abismais. Até o Ministério Público, com sua espada brilhante, pouco dialoga e muito degola. Mas, na margem da política de grandes eventos que domina o nosso país acontecem coisas inaceitáveis. Há uma crescente criminalização e uma cruzada para o extermínio da arte e da genuína cultura brasileira. Seja tradicional ou contemporânea. Uma tragédia anunciada que avança a cada dia sobre os nossos silêncios. Outro exemplo? Há uns quatro anos, a poeta Telma Scherer foi parar numa delegacia por estar fazendo uma performance literária na tradicional Feira do Livro de Porto Alegre. A alegação dos denunciantes é que a mesma estava “atrapalhando o fluxo”. Mais uma vez, portanto, o delírio financeiro apunhalando a arte.
Em Pernambuco, este ano, chegou-se às raias do absurdo. Um deputado apresentou um projeto de lei limitando e até excluindo a ação dos artistas de rua – esses guerreiros que espalham alegria em cenários muitas vezes tão macambúzios. O mais grave é que a Assembleia Legislativa de Pernambuco aprovou esta ameba legislativa e o governador sancionou. Ou seja: estamos vivendo tempos cada vez mais difíceis para artistas e brincantes. Aqui e ali estão excluindo e marginalizando a arte e a cultura. Aniquilando nossa identidade. Tudo em nome das multidões formadas pela milionária indústria do entretenimento. Se temos alguma coisa a ver com isso? Claro que sim. Afinal, estamos debaixo da mesma lona. Ou organizamos nossa alegria, ou seremos arrastados pela tristeza desta silenciosa inquisição. O poeta Gregório de Mattos, sempre atual, já dizia: “Neste mundo é mais rico, o que mais rapa: (...) Quem dinheiro tiver, pode ser papa.”

quarta-feira, 13 de maio de 2015

O escândalo que a imprensa omite

Por Lau Siqueira

O Instituto Cultural Béradêro é uma coisa linda de se ver. Fica no sertão paraibano. Mais precisamente em Catolé do Rocha. Na Praça de Guerra do Chico Cesar. É um polo regional importante. Daqueles que extrapola a fronteira do Estado porque tem uma tradição imensa na cultura e na história nordestina. Mesmo assim não escapa.  Já começa a padecer as mazelas urbanas do terceiro milênio. Todavia a cidade foi absorvendo com êxito algumas políticas sociais importantes. Uma delas é o PRIMA – Programa de Incentivo à Música e as Artes implantado na primeira gestão do governador Ricardo Coutinho. O projeto Xique-xique, por outros caminhos, vai na mesma direção. Mas, o “Projeto Béradêro”, criado há vinte anos, assim como o PRIMA, forma cidadãos e cidadãs através da música e das artes.

Quem se interessa em soluções brasileiras para o Brasil não pode deixar de conhecer de perto o Instituto Béradêro. Lá os jovens aprendem não apenas a tocar instrumentos eruditos e populares, ou a conviver com as tecnologias. Aprendem os aspectos profissionais da arte e, sobretudo, recebem diariamente lições de humanidade. Já passam de mil os jovens beneficiados. Alguns deles com a carreira já assegurada na vida. Por tudo isso o Béradêro é uma experiência que precisa ser multiplicada. No entanto, corre o risco de ser mais uma vítima da corrupção cotidiana que, neste país, é lembrada apenas quanto vira manchete.


Estamos enojados de assistir na TV, ler nos jornais e portais novidades surradas sobre a operação Lava-jato. Imaginem o que significaria para o Brasil se os milhões desviados pelos marginais de gravata tivessem sido aplicados em projetos semelhantes ao Béradêro e não em Bancos da Suiça.  Os trabalhadores da Petrobrás estão com as barbas de molho. Sabem que também estão seriamente ameaçados. Logo eles que fazem desta empresa um símbolo do país. Mas, não só eles. O próprio futuro do Brasil está em xeque. Algum instrumento jurídico ou divino deveria obrigar a empresa a manter seus projetos sociais em qualquer circunstância.  Mais que isso: fazer com que o dinheiro desviado  retorne aos cofres da empresa com destino aos béradêros espalhados por aí. Caso contrário vamos continuar celebrando a barbárie nossa de cada dia, estrangulando esperanças na frente da TV.  

quinta-feira, 7 de maio de 2015

O BLÁ BLÁ BLÁ DE LOBÃO

Por Lau Siqueira

Quando li esta semana uma declaração de Lobão sobre o cancelamento de 80% dos seus shows em 2014 fiquei muito preocupado. Só que não. Foi uma preocupação de uns dois minutos e meio. Logo relaxei. Afinal, pensei sobre quem era Lobão na lambada do rock Brasil.  Nunca fui fã do seu trabalho. Muito menos do seu estilo rebelde de boutique. Essa coisa de colocar o comportamento do artista acima da sua arte sempre me pareceu muito medíocre. Quando surgiu na cena nacional, parecia muito mais preocupado em mostrar o estilo “ídolo drogado” que uma música inovadora. Mas, foi nessa pisada que ganhou fama. Não foi pela consistência da sua obra. Ainda que existam pessoas que, logicamente, gostam do que produz. Ultimamente parece ter descoberto que não é Raul Seixas nem Waldick Soreano. Ganhou mídia nacional apoiando passeatas que pediam a volta da ditadura e o impeachment de Dilma. Sua música mais uma vez ficou em segundo plano.

Antes disso, pagou de escritor para ver colava. Parece que também não deu certo. Sabe por que? Porque está entre os que dão à própria história uma importância maior do que realmente tem. Daí partiu para a política. Quis virar o herói do que lhe parecia um filão. Afinal a derrota de Dilma estava escrita nas estrelas. Instrumentos como a Veja, a Globo, a Folha e outros abandonaram de vez o jornalismo para “formar opinião”. Jogo pesado. A opinião pública estava no caldo e no osso. A eleição parecia uma papinha de tão fácil. Seria Lobão o ministro da cultura num possível governo Aécio Neves? Quem duvida? O fato é que seguiu apostando no que lhe parecia invencível. Chegou a declarar que se mudaria do Brasil se Dilma ganhasse. Depois das eleições veio o mico. Descobriu que perdeu mais uma oportunidade de ficar calado. Ridicularizou-se perante seu próprio público. Pousou de paspalho. Perdeu público à esquerda e parece que não ganhou ninguém à direita. Agora retorna com a pose da vítima descabelada. Diz em tom de denúncia que teve shows cancelados por sua posição política. Mais uma balela.

Lobão nos mostra o quanto as aparências enganam. Às vezes vamos ao Centro Histórico e vemos aquela garotada tatuada, com pose de “mudernagem”. Sabia que alguns deles batem na namorada? Sabia que mesmo aqui na Paraíba alguns roqueiros se declararam neo-nazistas? Foram rejeitados pelos próprios colegas que não queriam o rock associado ao nazismo. Portanto, Lobão não surpreende mais uma vez. Principalmente por conta do seu histórico de projeção artística induzida. Uma frágil casca de rebeldia escondendo um oportunista patológico. Se tivesse o azar de encontra-lo pelas ruas não perderia a oportunidade de dizer: -“Vai pra Cuba!”

quarta-feira, 29 de abril de 2015

A ESTÉTICA DA EXISTÊNCIA

Por Lau Siqueira


A arte tem caminhos surpreendentes. Somos capazes de arrebatamentos com a mesma expressão em diferentes momentos. O mais impressionante é quando conhecemos um trabalho, sabemos da sua dimensão e mesmo assim somos surpreendidos. Somos arremessados contra as paredes da memória. Somos provocados para que aquele aprendizado fique tatuado na alma. Não faz muito tempo que me falaram da Cia. Gira Dança, de Natal-RN. Disseram da sua composição. Falaram das misturas. Mas, nada disseram das expressivas inquietações e das porradas no acaso. Então fui assistir o espetáculo “Sobre todas as coisas”, no teatro do SESI. Uma oferta do projeto Palco Giratório organizado aqui pelo SESC-PB. Não deu outra. Apanhei docemente da minha alegria. Tomei uma surra de vara da minha emoção. ‘Rapaz, toma jeito – pensei. Outra vez chorando em público? Que ótimo!’

Da primeira vez que falaram da Cia Gira Dança juro que pensei se tratar de mais um “trabalho social”. Perdi a vontade porque não vejo pessoas portadoras de algum tipo de deficiência como expressões de incapacidades. Tenho minhas razões. Minha filha é surda. Mestranda em Arquitetura na UFPB. A mãe dela é cega. Professora Doutora da UFPB. O contraponto mora nos meus afetos, portanto. Não aceito alguém com algum tipo de deficiência tratado com pieguice. A pieguice é a forma mais cínica do preconceito. Somos iguais. Compreender nossas diferenças é o melhor caminho para essa igualdade. Observemos a Cia. Gira Dança: são oito pessoas no palco. Cinco delas com diferentes tipos deficiências. No entanto, bastam dois minutos de espetáculo e ninguém mais vê as deficiências. Só vê arte. Só técnica corporal fruto de horas e horas de ensaio. Uma carga imensa de expressividade e, sobretudo, muito talento.

No teatro do SESI reafirmei o que penso sobre a arte e sobre a vida. Afinal, para algumas pessoas a obra mais significante de Van Gogh foi ter cortado a própria orelha. Pobres pessoas. Não têm olhos para a genialidade do artista. Perdem o mel do melhor. É como se ao olhar um quadro vissem apenas a moldura. Jamais se encantariam com o Museu do Inconsciente. O Gira Dança ocupa os palcos com artistas fantásticos. Uns mais altos, outros mais baixos. Uns cabeludos, outros de cabelo curto. O fato é que quando entram em cena a arte fala mais alto. Estão no palco de corpo e alma. Conscientes de cada movimento. Preparados para distribuir porradas com um discurso silencioso de quem tudo observa e tudo escuta. Inclusive as exclusões reproduzidas entre as minorias. Como quem vê melhor depois que cega. Como quem fala tudo após o silêncio. Como quem sorri feliz porque sabe que a arte venceu o preconceito.