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Mostrando postagens de 2015

Os idiomas da sonoridade e da imagem.

Por Lau Siqueira



Diz Antônio Cândido que “a expressão é o aspecto fundamental da arte e portanto da literatura.” No caso específico do haicai a expressividade se revela, principalmente, a partir da imagem sugerida. O discurso do olhar é determinante. Esta forma poética está entre as tradições culturais nipônicas que se espalharam pelo mundo. Já construiu, inclusive, uma tradição brasileira. Temos notícia da sua chegada ao nosso país  ainda no século XIX. Em 1908, a imigração japonesa trouxe junto o expressivo haikaista Shuhei Uetsuka (1876-1935). Mais tarde surgem os nomes brasileiros de Afrânio Peixoto e Guilherme de Almeida que, em diferentes épocas, propunham uma formatação tupiniquim. Através dos tempos vimos poetas como Leminski transitar com inventividade pelo haicai. Com versos rigorosamente metrificados, ou não, a verdade é que o Brasil foi produzindo seus grandes haicaistas: Millor Fernandes, Alice Ruiz, Teruko Oda, Goga e outros. Saulo Mendonça aparece com destaque ente os ma…

Anayde Beiriz e a memória perdida

Por Lau Siqueira
Um certo dia de 2007, na inauguração da Escola Municipal Anayde Beiriz, em João Pessoa, me deparei com um homem alto e sorridente que falou entusiasmado: “Lau, isso aqui é o Motiva do bairro das Indústrias!” Era o médico Marcus Aranha. Conversamos sobre a exposição dos trabalhos realizados pelos alunos da escola resgatando a memória de Anayde.  Conversamos sobre Anayde e sobre as lacunas da história oficial. Nosso contato maior sempre foi virtual. Nos vimos poucas vezes, mas guardávamos um pelo outro um respeito incomum. Marcus era um médico conceituado e gestor público zeloso, criativo e comprometido. Mas, também era, fundamentalmente, um pensador inquieto. Nunca escondeu seu fascínio pelos acontecimentos históricos de 1930. Principalmente aqueles  ocultados pelos interesses dominantes. Seu desejo de restaurar a imagem pública de Anayde Beiriz nunca foi segredo. Não mediu esforços para isso. Ele sabia que estaria prestando um serviço enorme à memória coletiva e à hist…

Quando a nudez é a escama

O cenário atual da poesia brasileira é amplo, diverso e cheio de belas surpresas. Claro que não desconheço o turbilhão de versos sem poesia. Também não desconheço o cinismo da política literária dominante.  Entretanto jamais renego o prazer das boas descobertas. Logicamente que a garimpagem haverá de ser precisa e delicada. Não que estejamos chegando ao ápice, comparando com os grandes momentos da poesia brasileira. Nunca mais teremos um Drummond. Outro Décio Pignatari não há. Nunca mais João Cabral. Não cabem os comparativos neste caso. O que ocorre na cena atual é um certo transbordamento das somas e das subtrações. Gerações sobrepostas revelam a cena atual. Reconhecer as boas colheitas é, no mínimo, um bom sinal  de inquietação. As experiências da vida e da linguagem nos fazem lembrar Bachelard: “todo sonhador inflamado é um poeta em potencial.”
Luciana Queiroz sempre me pareceu uma sonhadora inflamada. Pessoa de intensidades e cores colhidas no olhar. Leitora exigente de livros e …

VOCÊ DEFENDE A REDUÇÃO DA MAIORIDADE PENAL? SABIA QUE NO BRASIL EXISTE PUNIÇÃO PREVISTA A PARTIR DOS 12 ANOS?

Por Lau Siqueira
Criminalizar a juventude negra e pobre não vai conter a violência. Isso todo mundo sabe. É o que está posto. O problema é essa mania brasileira de mídia vai com as outras. Nosso país se especializou em criar leis que nunca são cumpridas. A impunidade ainda é o nosso mal maior. Este é o fato. Aliás, nem as decisões do Congresso Nacional são cumpridas. Se decide uma coisa num dia e no dia seguinte se decide o contrário. Uma vergonha! A verdade é que os interesses que se escondem por trás da redução da maioridade penal não revelam, por exemplo, que o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) já prevê punição para crianças a partir dos 12 anos de idade. O ECA já prevê seis tipos de punição: advertência, obrigação de reparar o dano, prestação de serviços à comunidade, liberdade assistida, semiliberdade e internação. Tudo de acordo com a gravidade da infração. Por que não se cumpre o que já está na lei? Por que o debate não é este e sim o da redução? Já se perguntou sobre i…

COMO DIZIA GREGÓRIO DE MATOS...

Por Lau Siqueira Esta semana ouvi o locutor de uma rádio, espantado, anunciar o cachê do Padre Fábio de Melo no Maior São João do Mundo. Também fiquei surpreso: 180 mil reais. No meu tempo Padre só recebia o dízimo. Mas, o valor do cachê não me espantou tanto. Isso é fruto de uma relação fria de mercado, onde a fé “costuma faiá”. O preço é este porque tem quem pague. Me espantou muito mais o miolo da conversa. O assunto era o “redimensionamento” da programação oficial, já anunciada, de onde excluíram artistas como Lucy Alves e Zé Ramalho. Paraibanos da gema e plenamente identificados com a tradição junina. Ora, o cachê do Padre pagava Zé e Lucy com sobras. Se era para economizar, o que justificou a escolha? O fato é que a programação do Maior São João do Mundo vem pisando na bola faz tempo. Atrações que não possuem qualquer identidade com a tradição junina estão “anabolizando” o evento. Mas, isso não é tudo. Estamos mesmo vivendo tempos bem estranhos para a arte e para a cultura no Br…

O escândalo que a imprensa omite

Por Lau Siqueira

O Instituto Cultural Béradêro é uma coisa linda de se ver. Fica no sertão paraibano. Mais precisamente em Catolé do Rocha. Na Praça de Guerra do Chico Cesar. É um polo regional importante. Daqueles que extrapola a fronteira do Estado porque tem uma tradição imensa na cultura e na história nordestina. Mesmo assim não escapa.  Já começa a padecer as mazelas urbanas do terceiro milênio. Todavia a cidade foi absorvendo com êxito algumas políticas sociais importantes. Uma delas é o PRIMA – Programa de Incentivo à Música e as Artes implantado na primeira gestão do governador Ricardo Coutinho. O projeto Xique-xique, por outros caminhos, vai na mesma direção. Mas, o “Projeto Béradêro”, criado há vinte anos, assim como o PRIMA, forma cidadãos e cidadãs através da música e das artes.
Quem se interessa em soluções brasileiras para o Brasil não pode deixar de conhecer de perto o Instituto Béradêro. Lá os jovens aprendem não apenas a tocar instrumentos eruditos e populares, ou a con…

O BLÁ BLÁ BLÁ DE LOBÃO

Por Lau Siqueira

Quando li esta semana uma declaração de Lobão sobre o cancelamento de 80% dos seus shows em 2014 fiquei muito preocupado. Só que não. Foi uma preocupação de uns dois minutos e meio. Logo relaxei. Afinal, pensei sobre quem era Lobão na lambada do rock Brasil.  Nunca fui fã do seu trabalho. Muito menos do seu estilo rebelde de boutique. Essa coisa de colocar o comportamento do artista acima da sua arte sempre me pareceu muito medíocre. Quando surgiu na cena nacional, parecia muito mais preocupado em mostrar o estilo “ídolo drogado” que uma música inovadora. Mas, foi nessa pisada que ganhou fama. Não foi pela consistência da sua obra. Ainda que existam pessoas que, logicamente, gostam do que produz. Ultimamente parece ter descoberto que não é Raul Seixas nem Waldick Soreano. Ganhou mídia nacional apoiando passeatas que pediam a volta da ditadura e o impeachment de Dilma. Sua música mais uma vez ficou em segundo plano.

Antes disso, pagou de escritor para ver colava. Parece…

A ESTÉTICA DA EXISTÊNCIA

Por Lau Siqueira


A arte tem caminhos surpreendentes. Somos capazes de arrebatamentos com a mesma expressão em diferentes momentos. O mais impressionante é quando conhecemos um trabalho, sabemos da sua dimensão e mesmo assim somos surpreendidos. Somos arremessados contra as paredes da memória. Somos provocados para que aquele aprendizado fique tatuado na alma. Não faz muito tempo que me falaram da Cia. Gira Dança, de Natal-RN. Disseram da sua composição. Falaram das misturas. Mas, nada disseram das expressivas inquietações e das porradas no acaso. Então fui assistir o espetáculo “Sobre todas as coisas”, no teatro do SESI. Uma oferta do projeto Palco Giratório organizado aqui pelo SESC-PB. Não deu outra. Apanhei docemente da minha alegria. Tomei uma surra de vara da minha emoção. ‘Rapaz, toma jeito – pensei. Outra vez chorando em público? Que ótimo!’

Da primeira vez que falaram da Cia Gira Dança juro que pensei se tratar de mais um “trabalho social”. Perdi a vontade porque não vejo pessoa…