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Mostrando postagens de 2012

Entre o virtual e o real – o papel das novas tecnologias da informação.

Por Lau Siqueira
Rita Lee foi bastante exata quando postou em seu Twitter, recentemente, que preservar a tradição era manter a chama e não juntar as cinzas. Este, talvez seja o ponto de partida para um debate que evolui a cada dia, sobre a permanência das impressões em papel ou a sua gradual migração para os meios virtuais. Na verdade, apesar de já podermos observar algumas tendências, ainda é cedo para conclusões definitivas. Alguns fatos revelam uma tendência, mas ainda sem a repercussão esperada. Um dos mais conceituados e tradicionais veículos de comunicação como o Jornal do Brasil ter migrado totalmente para a internet não passa impune ao observador mais desatento. No entanto, ainda nos perguntamos se é uma tendência ou apenas uma opção de mercado. Afinal, estamos longe de afirmar o fim do livro em papel, mas o comércio de e-books já é uma realidade incontestável se é que qualquer realidade não possa ser contestada.
Quando me refiroa necessidade de cautela nas afirmações acerca do …

NA SOMBRA DO TAMARINDEIRO

por Lau SiqueiraQuem já visitou a cidade de Sapé - berço das Ligas Camponesas e das lutas por Reforma Agrária – percebeu a representatividade do nome de Augusto dos Anjos. Natural daquele município, mais precisamente do Engenho Pau D’Arco, o poeta está presente na praça, no Centro Social Urbano, na cantoria dos violeiros e principalmente no indisfarçável orgulho do povo sapeense. Afinal, não é pouca coisa residir na terra natal de um dos ícones da Poesia de Língua Portuguesa. Todavia, alguma coisa ainda está fora da ordem. Por exemplo, não fosse a sensibilidade e o “interesse pessoal” de um grande intelectual paraibano chamado Odilon Ribeiro Coutinho, sequer o velho tamarindeiro existiria. Mesmo sendo ancoradouro da infância e inspirador de alguns dos mais populares versos deste poeta que foi eleito o “Paraibano do Século XX”. Com aproximadamente 300 anos esta árvore já estava condenada, mas resiste por ter sido tratada a tempo.
Atualmente, para chegar ao famoso tamarindeiro é um tra…

A FUNJOPE DE MAURÍCIO BURITY

Confesso que fiquei otimista com as primeiras declarações do futuro Diretor Executivo da Fundação Cultural de João Pessoa – FUNJOPE. Maurício Burity teve uma passagem rápida pela Fundação Espaço Cultural – FUNESC, mas deixou uma imagem muito positiva. Sua convivência com o meio cultural foi tranquila. Sua indicação, portanto, deve ser vista com os olhos da esperança. Não contenho a alegria de vê-lo preocupado com a revitalização de um projeto importante para a cidade, como o Circuito Cultural das Praças. Um ancoradouro generoso para a política descentralizada, anunciada pelo novo executivo da Fundação. Mesmo na gestão do PSB, o Circuito andava carecendo de ajustes. O que é natural em um projeto de tamanha complexidade e magnitude. Sua supressão foi um alerta sobre os rumos que a Fundação estaria tomando. Ainda bem que não passou de um susto. O Circuito Cultural das Praças nasceu na gestão cultural do ex-prefeito Ricardo Coutinho e serviu para estabelecer uma relação importante com a c…

POLÍTICA CULTURAL DO BNB AMEAÇADA

Em 2008 estive em Sousa e Cajazeiras, a convite do Fórum de Cultura do Alto Sertão – FOCA, para apresentar a política cultural desenvolvida então pela Fundação Cultural de João Pessoa - FUNJOPE, instituição que dirigia naquele momento. Em Sousa, nosso bate-papo aconteceu no belíssimo auditório do Centro Cultural BNB. Um equipamento cultural que muito me impressionou pela qualidade da estrutura e pelo impacto positivo na vida cultural da cidade. Um instrumento a serviço da construção de um futuro promissor para o Alto Sertão da Paraíba. Fiquei impressionado com a biblioteca e com a intensa participação dos jovens. O Centro Cultural do BNB de Sousa-PB foi o terceiro grande equipamento cultural construído pelo Banco do Nordeste do Brasil. Os outros dois localizam-se em Juazeiro-CE e Fortaleza-CE. A unidade de Sousa me pareceu a mais impactante, pela localização estratégica. Exatamente no centro do Alto Sertão da Paraíba. Uma região cheia de possibilidades, mas ainda carente de muito inv…

O CORREDOR DA LEITURA EM SAPÉ

Algumas ações importantes, principalmente em cidades como Sapé, Boqueirão, Nova Palmeira, Conde, Campina Grande, Lucena e João Pessoa revelam que o incentivo à leitura é uma paixão. Mas, uma paixão que só se revela completamente quando compartilhada. Não falo de ações desenvolvidas em escolas, apenas. O seminário Leitura na Rede já chegou à terceira edição e é desenvolvido por ONGs. A dimensão do evento é reveladora de uma atividade cotidiana muito bem sucedida em instituições como Apoitchá, Beira da Linha, Piollin, Olho do Tempo, ARCA e Casa Pequeno Davi. Portanto há um campo fértil para que iniciativas semelhantes comecem a deslanchar, tanto no âmbito das instituições públicas (escolas, Creches, Programas sociais) quanto na sociedade civil (sindicatos, ONGs, associações de bairro, etc).
Sapé é uma cidade especialíssima para a revitalização do projeto Corredor da Leitura. Afinal é a terra do grande poeta brasileiro Augusto dos Anjos. Não bastasse esse bom motivo é a cidade onde uma g…

A Obra Aberta de Fred Svendsen.

Observador da cidade e suas artes, confesso que fui fisgado pela inquietude criativa de Fred Svendsen e sua Baleia. Uma obra em exposição permanente na Estação das Artes. Um monumento com seis toneladas de ferro carbono dialogando com a natureza, numa fração mínima da Mata Atlântica. Signo de um tempo em que a devastação relata os caminhos da civilização. Algo pesado flutuando nos oceanos e refletindo um tempo onde o que prevalece é a velocidade. Não há quem não tenha sido tragado pelo próprio olhar diante de “A Baleia”, um monumento às artes e à preservação das espécies. Na verdade, Fred Svendsen criou mais que uma escultura colossal. Criou um enigma na Ponta do Cabo Branco. Um imponente portal para a Estação das Artes. Um sinal luminoso da inquietude de um artista que conjuga muitas linguagens na construção de um estilo singular. “A Baleia” revela-se de forma aguda enquanto força e movimento. É, certamente, um fato desafiador para uma obra de arte: mostrar a capacidade humana de repa…

O pintor Astier Basílio

No livro Comunicação Poética, o ícone concretista Décio Pignatari afirma que poesia é um tipo de arte plástica. Conceito que ratifica a boa poesia enquanto obra de arte. Em “Retratos Falados”, publicação do selo Dobra Literatura (55 pág.), Astier Basílio reafirma essa ideia. Dramaturgo reconhecido e poeta das melhores águas, Astier tem uma trajetória muito singular. Cavou seus primeiros versos nas tradicionais cantorias de viola. Uma herança da alma nordestina do pai. Transita com maestria pelas formas fixas - sonetista dos melhores – com sacadas minimalistas e experimentações que buscam banir os excessos para reinventar as sobras, numa poesia reconhecida pelo público e pela crítica.
Com prefácio luxuoso de Bráulio Tavares e orelha de Reynaldo Damásio, o livro é uma exposição do invisível. Em pinceladas sutis, ou mesmo num tsunami de cores e imagens, Astier retrata ícones da cultura local e universal. Também traduz obrasimprescindíveis para a história da arte. Por exemplo, a polêmica e…

Gilvan de Brito e sua Opus Diaboli

Por Lau Siqueira
As tragédias cumprem um papel determinante no destino dos povos. Na Paraíba nunca foi diferente. Afinal, foi uma tragédia que determinou o nome atual da capital João Pessoa. Alguns acontecimentos vão se distanciando, caminhando para o esquecimento, mas, jamais ficarão impunes diante da história. Os fatos ocorridos do dia 25 de agosto de 1975 (Dia do Soldado) na Lagoa do Parque Solon de Lucena exigiam um relato de fôlego há 36 anos. Foram trinta e cinco mortos. Entre os quais vinte e nove crianças. No triste cenário, uma embarcação do Exército Brasileiro que afundou nas águas da nossa Lagoa. O livro “Opus Diaboli – A Lagoa e outras tragédias”, do jornalista e escritor paraibano Gilvan de Brito busca mover o moinho do tempo com esta e outras águas passadas. Os militares que governavam o país com mão de ferro foram os protagonistas desta tragédia anunciada. A irresponsabilidade esteve no comando do triste espetáculo. Mais de cento e cinquenta pessoas equilibravam-se numa e…

TARANCÓN - A MÚSICA DO MUNDO

Por Lau Siqueira

Somente uma forte comunhão de ideias sobre a música e sobre o mundo para sustentar um fenômeno como o Tarancón. O ano de 2012 marca os quarenta anos de estrada deste grupo que jamais abriu mão da identidade latino-americana. Desde a primeira formação com Miriam Miráh, Emílio de Angeles, Marli Pedrassa, Alice Lumi, Halter Maia, Jica Nascimento e Juan Falú, até a formação atual, com Ademar Farinha, Emilio de Angeles, Jonathan Andreoli, Jorge Miranda, Lucia Nobre, Moreno Overá, e Natalia Gularte, a pegada é a mesma. A partir do terceiro disco destacamos uma presença fundamental para a história do grupo: Sérgio Turcão. No mais, músicos jovens vão sendo incorporados e o Tarancón permanece firme com suas flautas, charangos, violas, quenas, sikus, bombo, cajón, congas, bongôs, etc. Num tempo em que a diluição domina o mercado fonográfico o Tarancón aliou-se à poesia e à existência, numa perfeita conjugação de tradição e modernidade. Executa até mesmo músicas dos Beatles “sin …

O SILÊNCIO DAS PRAÇAS

Às vezes, criticamos de forma aguda o que existe e silenciamos diante das supressões, das omissões, dos apagões e do vazio. O Movimento Cultural pessoense se mostrou perplexo e inquieto diantede uma notícia sombria: este ano não haverá o Circuito Cultural das Praças. O desprezo foi tamanho que sequer anunciaram o fim de um projeto que há seis anos envolviamilhares de pessoas. É certo que havia a necessidade de muitos ajustes. Mas, haveremos de concordar que sua extinção pura e simples é um tiro no pé da política cultural da cidade.

O Circuito Cultural das Praças nasceu em 2006, no Anfiteatro Lúcio Lins. Uma articulação da FUNJOPE com a comunidade artística dos Bancários. Depois foi se espalhando na Praça do Coqueiral, na Praça Bela, Praça do Caju... E funcionava como um respiradouro nas praças que estavam sendo construídas e revitalizadas. Depois vieram bairros como Castelo, Gervásio, Manaíra, Padre Zé, Cidade Verde... Eram tantas as praças! Mas, a verdade é que o Circuito cresceu e o…

Cantiga de grilo/ No tiro ao Álvaro/ Um riso do estilo*

Em “A Farmácia de Platão”, Jacques Derrida consegue resumir a fórmula do que podemos considerar uma boa leitura. Já no primeiro parágrafo o pensador francês diz que “um texto só é um texto se ele se oculta ao primeiro olhar, ao primeiro encontro, a lei de sua composição e a regra de seu jogo.” Para o exercício a seguirqueremos propor que a leitura seja realizada com olhos de quem lê uma fotografia. De preferência, dialogando com Derrida na complementação da imagem e no jogo das suas possibilidades. A leitura, então, conduzirá ao impacto de uma “aventura planejada”, como diria Décio Pignatari. Algo que, aliás, tem um peso-pesado na linhagem e no drible de um haikai tão brasileiro quanto o Rei Pelé.

Há quem diga que essa forma japonesa já ganhou sua autonomia na flora diversa da Língua Portuguesa. Outros classificam pejorativamente essa autonomia de micro-soneto. Alguns, com um olhar de Babalorixá sobre a espiritualidade das flores,sequer a reconhecem. Esse debate renderia um longo ens…

IDEB E LEITURA

A divulgação do resultado do IDEB – Índice de Desenvolvimento do Ensino Básico mostra um diagnóstico terrível da Educação em nosso país, mas também aponta caminhos. O fundamental é percebermos que os resultados não são responsabilidade exclusiva das gestões municipais, estaduais e federal da Educação. A sociedade precisa assumir o seu papel e cobrar, mas também apontar soluções. Muitos fatores podem fazer a diferença. Sobretudo a criatividade dos profissionais e o envolvimento da comunidade. Em São Mamede temos uma situação curiosa. Enquanto a Escola Estadual Seráfico da Nóbrega bombou com 5.8, alcançando a maior nota na Paraíba a Escola Estadual Napoleão Nóbrega ficou com nota 2.9. Qual será o fenômeno que separa de forma tão acentuada o nível de ensino de duas escolas estaduais no mesmo município?
Ainda sem respostas para a questão acima lembro a escola que aparece em primeiro lugar no ranking nacional - Escola Municipal Carmélia Dramis Malaguti, em Itaú de Minas - MG, com nota 8,6.…

O desejo do impossível

por Lau Siqueira
A literatura contemporânea construiu elos através dos séculos e se fortalece com isso. A Poesia Visual que aparece como vanguarda no final do século XX, por exemplo, não era segredo para Simmias há dois mil anos, na Grécia. A Arte Literária é um desafio ao tempo. Através dos séculos promove releituras de cenários que evocam sua permanência. Assim, a leitura do excelente livro Microf(r)cções (Editora Multifoco-RJ, 2012) do escritor campinense Janailson Macedo Luiz, lembra naturalmente a releitura de Baudelaire em “Meu coração desnudado” (Mon coeur mis à nu) e “Rojões” (Fusées). Essas obras foram descobertas por um biógrafo de Baudelaire e se perderiam como anotações manuscritas e dispersas. Guardadas as proporções, fruto de processos semelhantes aos relatados por Janailson acerca do método de experimentação das suas micro-narrativas. Os textos deste “Microf(r)cções” alertam, também para as possibilidades e inquietações da chamada literatura digital. A maioria obedece ri…

A LEITURA FAZ A FEIRA

Por Lau Siqueira
Existem consensos que parecem inúteis. Não se configuram com maior amplitude, apesar do amplo reconhecimento. As ações de incentivo à literatura e leitura são o melhor exemplo. Não há quem discorde de algumas verdades: o hábito da leitura melhora a qualidade do ensino porque torna o alunado mais ágil no mergulho do conhecimento; o hábito da leitura eleva o nível da consciência cidadã, pois o leitor estabelece uma perspectiva mais nobre para a sua vida e desenvolve um inevitável senso crítico. Certamente estamos falando aqui, não de doutrinação, mas de libertação. O hábito da leitura e mais ainda, da boa literatura, independentemente de gênero ou estilo, oferece uma possibilidade concreta de elevação da qualidade de vida. Segundo Antônio Cândido, a literatura deveria ser considerada um dos direitos humanos.

Logicamente que não queremos mascarar a realidade da indústria editorial globalizada, onde a concentração de riquezas dita as regras, com o apoio incondicional da leg…

SILVINO OLAVO

por Lau Siqueira
As novas mídias provocam uma reflexão inadiável acerca do que pode ser consagrado pela eternidade. Nestes temposmodernos grande parte dos textos publicados nascem e se consolidam enquanto arquivo digital. É verdade que muita banalidade acabará dialogando com o futuro.Todavia é concreta também a possibilidade de apagarmos as linhas de esquecimento que tangem a poesia e a vida de autores importantes. Silvino Olavo entre eles. Um autor necessário às novas gerações. O poeta nasceu no município paraibano de Esperança em 1897 e faleceu em 1969 na “Rainha da Borborema”.

Dono de uma lírica que dialogava diretamente com o simbolismo de Mallarmé, Rimbaud, Verlaine, Eugênio de Castro, Cruz e Sousa, entre outros, Silvino Olavo foi um pré-modernista contemporâneo da Semana de Arte Moderna de 1922. Fez parte de uma geração que provocou a ruptura definitiva com o parnasianismo, mas não com o soneto. Carregava uma indisfarçável e grata influência do poeta belga Georges Rodenbach que e…

Memórias de Macondo

O medo dos pequenos

por Lau Siqueira

Vamos aqui nos referir aos pequenos. Não apenas aos de tenra idade. Mas, aos que somente se tornam visíveis enquanto multidão ou grave sinalização estatística.Falo dos que sobraram na curva das tantas equações da economia globalizada. Uma economia cujo modelo conjuga sociologicamente suntuosidade condensada com vulnerabilidade dilatada. Em alguns períodos com maior progressividade. Enfim, o desafio está posto. Mas, antes que a politicagem tome conta do debate é bom lembrar que a desigualdade chegou no Brasil com as primeiras caravelas. Somente nos últimos anos começamos a efetivar obom combate das políticas públicas. No entanto, as transformações na cartografia social ainda são lentas. Cada vez que a miséria explode seus efeitos sobre o cotidiano aflora o medo da barbárie. Na semana que passou, mais uma vez, dei de cara com o medo dos pequenos.Estive operando o resgate de cinco famílias em Mangabeira, num cenário violado pelo crime. Naquela madrugada, a guerra do crack…