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sábado, 29 de dezembro de 2012

Entre o virtual e o real – o papel das novas tecnologias da informação.


 Por Lau Siqueira

Rita Lee foi bastante exata quando postou em seu Twitter, recentemente, que preservar a tradição era manter a chama e não juntar as cinzas. Este, talvez seja o ponto de partida para um debate que evolui a cada dia, sobre a permanência das impressões em papel ou a sua gradual migração para os meios virtuais. Na verdade, apesar de já podermos observar algumas tendências, ainda é cedo para conclusões definitivas. Alguns fatos revelam uma tendência, mas ainda sem a repercussão esperada. Um dos mais conceituados e tradicionais veículos de comunicação como o Jornal do Brasil ter migrado totalmente para a internet não passa impune ao observador mais desatento. No entanto, ainda nos perguntamos se é uma tendência ou apenas uma opção de mercado. Afinal, estamos longe de afirmar o fim do livro em papel, mas o comércio de e-books já é uma realidade incontestável se é que qualquer realidade não possa ser contestada.

Quando me refiro  a necessidade de cautela nas afirmações acerca do processo migratório do papel para o virtual, seja para a literatura ou para o jornalismo, me baseio, entre outros exemplos, em uma reportagem publicada num dos jornais mais tradicionais e conhecidos do mundo, o New York Times, quando do surgimento da televisão. Na época o jornalista subestimou demasiadamente o novo invento, ressaltando suas qualidades, mas afirmando que se tratava de uma invenção sem qualquer valor comercial. O que a história nos mostra é exatamente o contrário. A televisão passou a determinar o desenvolvimento de amplos setores da economia. A televisão desenvolveu de forma significativa setores como a publicidade enquanto vetor de desenvolvimento econômico, político e social. A comunicação sofreu mais uma revolução. Talvez semelhante à revolução provocada pela invenção da tipografia. Da mesma forma, os neo-visionários preconizaram o fim do cinema e do rádio. Entretanto, foi exatamente após o surgimento da televisão que o cinema e o rádio tiveram suas evoluções mais agudas enquanto instrumentos de mídia.

Por tudo isso e por mais alguns parágrafos de argumentos que não irei expor neste momento, entendo que não haverá substituição alguma. Mais uma vez assistiremos uma evolução dos processos hoje desenvolvidos. Estamos vivendo a era das velocidades. O que hoje aparece como novidade tecnológica de última geração, na próxima semana tende a ser envelhecer devido às novas invenções ou mesmo adaptações. Mas, as tendências desde que o mundo é mundo nos dizem que com este tipo de evolução as portas estão abertas para o desenvolvimento humano. A partir da leitura enquanto direito social, podemos observar com muita tranquilidade que as novas tecnologias acabaram provocando um equilíbrio maior nas relações sociais, apesar de fornecer também grandes riscos. O equilíbrio se refere, podemos assim dizer, às ações contundentes de grupos políticos como os Chiapas. Sem que seja disparado um único tiro de fuzil, pelas redes sociais, eles colocam o governo do México contra a parede. Os riscos se referem a oportunidades que intelectuais do crime como Marcola (que cita Dante no original) passam a ter em relação ao acesso ás tecnologias de comunicação, a partir da corrupção nos presídios.

Desta forma, entendemos que o fator humano ainda é insuperável. O que se diz quanto às relações entre a arte e as novas mídias, faz parte de uma compreensão mais humana das novas tecnologias. Encontraremos na arte, provavelmente, os melhores indicadores desta tendência. O artista sempre se utilizou das linguagens existentes para expressar suas angústias sobre o mundo. Se os renascentistas, na verdade, se utilizaram da evolução tecnológica em sua época para afinar suas linguagens e expressar sua identidade estética, também é verdade o contrário. Em pleno século XXI o artista plástico e designer paraibano Francc Neto, se apropria dos elementos mais rudimentares, mais primitivos, como o fogo, a cera de abelha, o tempo e suas ferrugens, para expressar uma arte que, despreocupada com os conceitos de vanguarda, avança sobre o tempo como um grito futurista. Portanto, o que vemos nesta conjugação de elementos é outro tipo de preocupação. Talvez algo próximo ao que Proust escreveu sobre a sedução e os perigos da leitura enquanto instrumento de evolução da vida. Ou o que Augusto dos Anjos alerta quando diz que “a mão que afaga é a mesma que apedreja”.

Em última análise e sem qualquer pretensão afirmativa, entendemos que não haverá, pelo menos num futuro próximo, uma substituição radical do que se mostra como físico, pelo virtual. Vou ousar aqui afirmar que o interesse comercial é que determinará a velocidade desta migração. Afinal, o mercado editorial é um dos raros setores da economia onde o neoliberalismo avançou de forma escandalosamente silenciosa. Editar livros, no Brasil, se tornou um negócio altamente lucrativo se observarmos como observamos em um artigo anterior que o Ministério da Educação é o terceiro maior comprador de livros do mundo. Cada vez mais o capital especulativo comanda a impresão das melhores e das piores páginas. A concentração de lucros é assustadora. Por outro lado, não devemos desligar o sinal de alerta sobre fatos já incontestáveis como a migração de um dos maiores jornais brasileiros para a WEB. Ou mesmo para um nicho altamente lucrativo do mercado editorial que se abre com a comercialização de e-books que chegam aos lares brasileiros com preços (em dólares americanos) semelhantes aos onerosos produtos impressos encontrados nas estantes das melhores livrarias. Mas, nem tudo está perdido. Se quisermos apontar o lado democrático desta migração vamos desaguar na acessibilidade. Livros e jornais virtuais, por exemplo, colocaram na rota da informação setores da sociedade silenciosamente excluídos pela história durante milênios, como os cegos. Programas de computador, atualmente, permitem ao cidadão portador de cegueira o acesso à obras literárias ou mesmo científicas. Também aos jornais e portais de notícias, através de programas específicos de tradução oral. Portanto, antes da condenação ou adesão afobada, as novas tecnologias nos proporcionam o direito de pensar o mundo em que vivemos de forma mais democrática, mais universal do ponto de vista social e intelectual e menos globalizada do ponto de vista econômico e político.

Artigo inédito para a minha coluna do portal RepórterPB (www.reporterpb.com.br)

NA SOMBRA DO TAMARINDEIRO

por Lau Siqueira

Quem já visitou a cidade de Sapé - berço das Ligas Camponesas e das lutas por Reforma Agrária – percebeu a representatividade do nome de Augusto dos Anjos. Natural daquele município, mais precisamente do Engenho Pau D’Arco, o poeta está presente na praça, no Centro Social Urbano, na cantoria dos violeiros e principalmente no indisfarçável orgulho do povo sapeense. Afinal, não é pouca coisa residir na terra natal de um dos ícones da Poesia de Língua Portuguesa. Todavia, alguma coisa ainda está fora da ordem. Por exemplo, não fosse a sensibilidade e o “interesse pessoal” de um grande intelectual paraibano chamado Odilon Ribeiro Coutinho, sequer o velho tamarindeiro existiria. Mesmo sendo   ancoradouro da infância e inspirador de alguns dos mais populares versos deste poeta que foi eleito o “Paraibano do Século XX”. Com aproximadamente 300 anos esta árvore já estava condenada, mas resiste por ter sido tratada a tempo.

Atualmente, para chegar ao famoso tamarindeiro é um transtorno. Procura-se uma chave não sei onde, atravessa-se um quintal de não sei quem - esquivando-se dos cães - para então usufruir da magia frondosa de uma das árvores mais famosas do mundo. Semelhante é o abandono do lago que banhou a infância e juventude do poeta. Hoje, apenas um refúgio assoreado de ressecadas lembranças. Afora isto, sobraram as ruínas da Usina Santa Helena e o Memorial Augusto dos Anjos. Este sim, um prédio restaurado e com algum acervo. Poucos mas, atentos e atenciosos funcionários. Um patrimônio restituindo à história, a antiga casa de Guilhermina - “mãe de leite do poeta”. Em frente à Usina Santa Helena, pouco conservada, temos a capela onde o poeta foi batizado. Um patrimônio considerável e que pede atenção. Há um grito no ar repercutido por alguns poucos sonhadores, como Carlos Aranha, Jairo Cezar e Chico Viana.

Em torno da memória de Augusto dos Anjos, Sapé poderia estar desfrutando de uma fatia generosa da sua economia da cultura. Logicamente que seria necessário um olhar mais atento dos governos e da iniciativa privada. Algo que transcenda o simples aporte de recursos financeiros. São urgentes algumas ações criativas para a valorização dos produtos com a marca registrada do poeta. Sejam licores ou sucos de tamarindo. Seja na valorização do patrimônio artístico e do artesanato. Sapé é uma cidade de muitos artistas. Possui uma cultura forte, amparada nos versos pré-modernistas de Augusto. A cidade respira as lutas e a cultura do seu povo. Riquezas que jamais poderão ser negligenciadas pelos roteiros turísticos. Falta muito pouco para que este município descubra sua melhor vocação e transborde para o mundo. Não há nenhum segredo nisso.

 
Artigo que será publicado amanhã, último domingo de 2012, no Jornal da Paraíba (edição impressa e digital)

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

A FUNJOPE DE MAURÍCIO BURITY


Confesso que fiquei otimista com as primeiras declarações do futuro Diretor Executivo da Fundação Cultural de João Pessoa – FUNJOPE. Maurício Burity teve uma passagem rápida pela Fundação Espaço Cultural – FUNESC, mas deixou uma imagem muito positiva. Sua convivência com o meio cultural foi tranquila. Sua indicação, portanto, deve ser vista com os olhos da esperança. Não contenho a alegria de vê-lo preocupado com a revitalização de um projeto importante para a cidade, como o Circuito Cultural das Praças. Um ancoradouro generoso para a política descentralizada, anunciada pelo novo executivo da Fundação. Mesmo na gestão do PSB, o Circuito andava carecendo de ajustes. O  que é natural em um projeto de tamanha complexidade e magnitude. Sua supressão foi um alerta sobre os rumos que a Fundação estaria tomando. Ainda bem que não passou de um susto.
O Circuito Cultural das Praças nasceu na gestão cultural do ex-prefeito Ricardo Coutinho e serviu para estabelecer uma relação importante com a cultura feita nos bairros. Um projeto que popularizou a FUNJOPE.  Encantava-nos, por exemplo, a Orquestra de Violões tocando Villa-Lobos na Praça do Coqueiral. Ou mesmo uma plateia atenta adiante um solo de tímpanos na Praça da Paz. Foram incontáveis os momentos sublimes vividos pelo Circuito, seja com lapinhas, bandas de rock, grupos de dança, circo, música popular, teatro de rua, teatro de bonecos, etc.. Começava ali  um processo de descentralização das ações culturais. A sinalização do novo gestor, portanto, dialoga com a história cultural da cidade. Afinal, o circuito Cultural das Praças é herdeiro de projetos não menos importantes como Fala Bairros e Araponga.
A supressão de ações culturais importantes como o Dia de Brincar, Circuito Cultural das Praças, Música do Mundo deixou a comunidade cultural de olho vivo. Inclusive até mesmo uma Virada Cultural (paulista da gema) estava anunciada. Por isso, as revelações do novo Diretor Executivo da Fundação precisam ser celebradas. Revelam, sobretudo, capacidade e disposição de diálogo com a cidade. Algo imprescindível, pois a FUNJOPE trabalha com arte erudita, mas também com a Capoeira, a cultura dos Mestres Pindoba, Carboreto e Mané Baixinho. Cirandeiros do Vale do Gramame, Ateliê Nai Gomes, Balaio Nordeste e Coletivo Mundo. Enfim, as cartas estão na mesa. O Movimento Cultural pessoense sabe o que quer. Gestão cultural não é fácil. Esperamos que um novo e produtivo ciclo esteja começando. Nossa saudação ao Maurício Burity. Sua credibilidade e capacidade empreendedora serão fundamentais para embalar os dias que estão por vir. Sangue novo, ideias novas, novos saberes. No mais, Boas Festas ao povo da cultura!

Esse texto será publicado na minha coluna, no Jornal da Paraíba do próximo domingo.

POLÍTICA CULTURAL DO BNB AMEAÇADA



Em 2008 estive em Sousa e Cajazeiras, a convite do Fórum de Cultura do Alto Sertão – FOCA, para apresentar a política cultural desenvolvida então pela Fundação Cultural de João Pessoa - FUNJOPE, instituição que dirigia naquele momento. Em Sousa, nosso bate-papo aconteceu no belíssimo auditório do Centro Cultural BNB. Um equipamento cultural que muito me impressionou pela qualidade da estrutura e pelo impacto positivo na vida cultural da cidade. Um instrumento a serviço da construção de um futuro promissor para o Alto Sertão da Paraíba. Fiquei impressionado com a biblioteca e com a intensa participação dos jovens. O Centro Cultural do BNB de Sousa-PB foi o terceiro grande equipamento cultural construído pelo Banco do Nordeste do Brasil. Os outros dois localizam-se em Juazeiro-CE e Fortaleza-CE. A unidade de Sousa me pareceu a mais impactante, pela localização estratégica. Exatamente no centro do Alto Sertão da Paraíba. Uma região cheia de possibilidades, mas ainda carente de muito investimento em todas as áreas. Muito especialmente na cultura.


A circulação de um e-mail do Fórum de Cultura do Alto Sertão deixou a comunidade cultural da Paraíba atônita. O FOCA denuncia a possibilidade real do desmonte de uma política cultural que já trouxe muitos benefícios, inclusive para o desenvolvimento de uma economia da cultura na região. Uma política cultural cujo impacto pode ser medido pelo alcance dos editais e pela qualidade desses três equipamentos culturais construídos. A diretoria do FOCA, preocupada com os acontecimentos, está convocando uma reunião para discutir o assunto. A reunião acontecerá no mini-auditório do Campus I da UFCG, no centro de Sousa-PB, no próximo dia 15 (sábado), às 15h. Na pauta, o desmonte da política de cultura do Banco do Nordeste do Brasil a partir do risco eminente de fechamento dos Centros Culturais. Também a suspensão do lançamento do edital 2013 de ocupação da programação diária do Centro Cultural, a demissão de funcionários e a impossibilidade de novas contratações; a suspensão da política de implantação de novos espaços e a abertura dos Centros Culturais de Teresina-PI e Vitória da Conquista-BA. Ainda, a suspensão do lançamento do edital do BNB de cultura 2012/2013 e corte nos gastos com a gestão cultural.

Ainda bem que existe um movimento social da cultura bastante atento no Alto Sertão. Todavia, devemos buscar uma reação coletiva mais ampla e tentar reverter o desmonte em que já está curso. Este é um compromisso que deve ser assumido por todo militante cultural, em qualquer parte do país ou mesmo no exterior. Afinal, o que tudo isso nos revela é que a redução dos espaços da cultura abre as portas também para a redução dos espaços democráticos da sociedade. A cidade de Sousa e o Alto Sertão da Paraíba reconhecem a importância deste equipamento e da política cultural do BNB. Esperamos que esta notícia circule o bastante para que os “homens do poder” possam buscar outras saídas e para que os avanços continuem. Não podemos abrir mão de qualquer ação pelo desenvolvimento de uma região historicamente esquecida pelos governos.

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NOTA: Reunião do FOCA

Local: Mini auditório do Campus I do Centro de Ciências Jurídicas e Sociais Cultural da UFCG – Sousa, No Centro de Sousa

Cidade: Sousa Horário: 15h



Texto publicado originalmente na minha coluna do portal Repórter-PB, www.reporterpb.com.br

 

O CORREDOR DA LEITURA EM SAPÉ


Algumas ações importantes, principalmente em cidades como Sapé, Boqueirão, Nova Palmeira, Conde, Campina Grande, Lucena e João Pessoa revelam que o incentivo à leitura é uma paixão. Mas, uma paixão que só se revela completamente quando compartilhada. Não falo de ações desenvolvidas em escolas, apenas. O seminário Leitura na Rede já chegou à terceira edição e é desenvolvido por ONGs. A dimensão do evento é reveladora de uma atividade cotidiana muito bem sucedida em instituições como Apoitchá, Beira da Linha, Piollin, Olho do Tempo, ARCA e Casa Pequeno Davi. Portanto há um campo fértil para que iniciativas semelhantes comecem a deslanchar, tanto no âmbito das instituições públicas (escolas, Creches, Programas sociais) quanto na sociedade civil (sindicatos, ONGs, associações de bairro, etc).

Sapé é uma cidade especialíssima para a revitalização do projeto Corredor da Leitura. Afinal é a terra do grande poeta brasileiro Augusto dos Anjos. Não bastasse esse bom motivo é a cidade onde uma geração de jovens educadores desenvolve um programa escolar de incentivo à leitura que merece atenção da sociedade de um modo geral, mas principalmente do Governo do Estado. Falamos do PILE – Programa de Incentivo à Leitura na Escola, desenvolvido na Escola Estadual Gentil Lins. Um fator de integração da comunidade escolar, com repercussões extremamente positivas no cotidiano da escola. Por exemplo, a erradicação da violência na escola.

O Corredor da Leitura não chega para competir, mas para somar. Trata-se de um programa muito simples. Ao cria-lo, partimos de alguns fatores. O Brasil está entre os dez maiores produtores de livros do mundo e o MEC é o terceiro maior comprador de livros do mundo. Portanto, não temos dúvidas quanto à existência de livros para projetos semelhantes. Os índices de analfabetismo funcional encontrados até mesmo nas universidades são preocupantes. Infelizmente, desde a ditadura, existe uma negligência quanto a qualidade da leitura. Isso se reflete diretamente na capacidade para a interpretação do texto e no  diálogo com a subjetividade do texto. Algo que é muito particular.  Pela análise das poucas experiências existentes, a alfabetização formal pode receber uma injeção de ânimo a partir da presença da leitura no PPP (Projeto Político Pedagógico) da escola. A escola brasileira com melhor nota no IDEB está localizada em Itaú de Minas. A sustentação do seu planejamento pedagógico está  num programa de incentivo à leitura. Não é coincidência. As escolas que incentivam à leitura estão na frente e os maiores beneficiados são os filhos do povo. A experiência da Escola Estadual Gentil Lins é apenas mais um bom exemplo.

Em Sapé o Corredor da Leitura acontecerá da mesma forma que aconteceu no corredor principal da Secretaria de Desenvolvimento Social – SEDES, de João Pessoa. Uma estante doada. Livros doados. Pessoas atentas à importância da leitura, sempre por perto. Não há qualquer tipo de controle. Os livros são disponibilizados livremente para que os leitores possam acessá-los, trocá-los, fazer doações, realizar novas campanhas e lançar novas formas, outros modos de incentivo ao hábito da leitura solidária e da cidadania. Ou seja, não importa o projeto em si, mas o objetivo da ação que ele propõe. Não há propriedade nem se pretende uma patente. Qualquer pessoa pode conduzir algo semelhante numa associação de bairro, num sindicato, numa Igreja. Enfim, trata-se de uma ação cuja necessidade única de diálogo com as demais ações educativas é totalmente libertária.

A nova fase do Corredor da Leitura será lançada com um sarau específico. Leituras de poemas do grande poeta Augusto dos Anjos, no próximo dia 20, às 17:30h, no Centro Social Urbano de Sapé. Um equipamento da Secretaria de Desenvolvimento Humano do Estado da Paraíba. Enfim, esta é apenas mais uma boa ideia para ser compartilhada. Será bom recomeço e uma lição aberta às tantas portas fechadas que vemos no setor público e fora dele. O Corredor da Leitura não é uma biblioteca, mas uma bisbilhoteca. A comunidade de Sapé sempre surpreende e, certamente, nos mostra que é possível ousar mais e ir mais longe. Iremos buscar esses caminhos. Afinal, como dizia Roland Barthes, a Literatura contém muitos saberes.


Texto escrito para minha coluna no portal Paraíba Já, www.paraibaja.com.br

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

A Obra Aberta de Fred Svendsen.

Observador da cidade e suas artes, confesso que fui fisgado pela inquietude criativa de Fred Svendsen e sua Baleia. Uma obra em exposição permanente na Estação das Artes. Um monumento com seis toneladas de ferro carbono dialogando com a natureza, numa fração mínima da Mata Atlântica. Signo de um tempo em que a devastação relata os caminhos da civilização. Algo pesado flutuando nos oceanos e refletindo um tempo onde o que prevalece é a velocidade.
Não há quem não tenha sido tragado pelo próprio olhar diante de “A Baleia”, um  monumento às artes e à preservação das espécies. Na verdade, Fred Svendsen criou mais que uma escultura colossal. Criou um enigma na Ponta do Cabo Branco. Um imponente portal para a Estação das Artes. Um sinal luminoso da inquietude de um artista que conjuga muitas linguagens na construção de um estilo singular. “A Baleia” revela-se de forma aguda enquanto força e movimento. É, certamente, um fato desafiador para uma obra de arte: mostrar a capacidade humana de repartir olhares sobre a mesma matéria.

Fui buscar em Umberto Eco as soluções para o meu espanto. Compreendi então, o quanto Fred Svendsen radicalizou, operando uma viagem de extremos. Por exemplo, do expressionismo ao impressionismo. Um segredo revelado na convulsão do amarelo, com as tonalidades do ambiente. Tudo a partir do impacto das mutações da luz solar. Pela conversação com o entorno e pela prosa fácil com a condição humana. Creio que se trata do que Umberto Eco classifica de “Obra Aberta nas artes plásticas”: “um campo de possibilidades interpretativas, como configuração de estímulos dotados de uma substancial indeterminação, de maneira à induzir o fruidor a uma série de leituras sempre variáveis”. Enfim, parece que não é imperativo o desvendamento  deste enigma, mas sim o  seu reconhecimento. O ápice da  expressão de um artista que bebe nas melhores águas da arte e  noutras formas de conhecimento.
Fred Svendsen realiza uma travessia com todos os seus acúmulos e com suas infinitas  possibilidades. Coisa de artista que passeia com maestria pela pintura, pela escultura, pelo design outras linguagens. Consagrado pela crítica e pelo público brasileiro, com várias incursões no exterior, Fred  gestou esta obra numa conversa de pássaros. Fosse poeta, “A Baleia” seria apresentada como suas “Obras Completas”. Eis um monumento que parte de  uma relação densa com sua aldeia e universaliza-se aos olhos do mundo que transita no Extremo Oriental. A Baleia é um grito e ao mesmo tempo um profundo silêncio diante de uma falésia que se revela no que “duas vezes não se faz”, como diria Hermano José. Sobretudo,  podemos afirmar que esta obra é um processo.

Texto a ser publicado no Jornal da Paraíba, dia 02/12/2012

sábado, 17 de novembro de 2012

O pintor Astier Basílio


No livro Comunicação Poética, o ícone concretista Décio Pignatari afirma que poesia é um tipo de arte plástica. Conceito que ratifica a boa poesia enquanto obra de arte. Em “Retratos Falados”, publicação do selo Dobra Literatura (55 pág.),  Astier Basílio reafirma essa ideia. Dramaturgo reconhecido e poeta das melhores águas, Astier tem uma trajetória muito singular. Cavou seus primeiros versos nas tradicionais cantorias de viola. Uma herança da alma nordestina do pai. Transita com maestria pelas formas fixas - sonetista dos melhores  – com sacadas minimalistas e experimentações que buscam banir os excessos para reinventar as sobras, numa poesia reconhecida pelo público e pela crítica.

Com prefácio luxuoso de Bráulio Tavares e orelha de Reynaldo Damásio, o livro é uma exposição do invisível. Em pinceladas sutis, ou mesmo num tsunami de cores e imagens, Astier retrata ícones da cultura local e universal. Também traduz obras  imprescindíveis  para a história da arte. Por exemplo, a polêmica escultura “O Porteiro do Inferno”, do paraibano Jackson Ribeiro   -  obra de referência na arte de vanguarda brasileira.  O poeta e crítico de Aroeiras-PB, Hildeberto Barbosa Filho é um dos “modelos” pintados por Astier com a tinta rara das palavras. Também George Harrison, B.B. King, Bom Dylan, Juan Rulfo, João Gilberto, Haroldo de Campos, Ivanildo Vila Nova (“Os lábios em rascunho, o estar stereo./ A única performance, a do verso”)... Personagens espalhados pelo mundo são retratados em versos densos, em soluções de afeto ou ira, numa apologia ao eterno espanto diante da arte e suas possibilidades.

Versos arrancados de mergulhos em águas profundas, como “a paixão corre o risco de um palco”, em Soneto de amor de Tonho e Paco. Um retrato falado que despe um clássico de Plínio Marcos. Enfim, temos aqui uma obra que reafirma o poeta, o dramaturgo, o ficcionista e cantador  Astier Basílio, entre os que desafiam o limite, os que ousam além do suportável em nome da poesia. Assim nasceu esse pintor do imperceptível, coletor de sonhos de luz e sombras, como diria Bachelard.

Com Retratos Falados Astier Basílio prossegue sua esgrima com uma poesia que não o abandona, mesmo nos textos jornalísticos. Especialmente no que Flaubert define enquanto arte literária e na contramão dos escambos cotidianos, dos caldos de batatas da cultura de massas. Estamos diante de mais um espetáculo da resistência e da proeminência de um escritor que, em cada movimento, afirma seu nome na História das Literaturas, fechando o cerco com o pensamento aguçado de Pignatari: “a poesia é uma aventura, mas uma aventura planejada”. Astier conhece todas as trilhas, mas não cansa de inventar caminhos.

Este texto será publicado amanhã, na minha coluna do Jornal da Paraíba.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Gilvan de Brito e sua Opus Diaboli

 
  Por Lau Siqueira
As tragédias cumprem um papel determinante no destino dos povos. Na Paraíba nunca foi diferente. Afinal, foi uma tragédia que determinou o nome atual da capital João Pessoa. Alguns acontecimentos vão se distanciando, caminhando para o esquecimento, mas, jamais ficarão impunes diante da história. Os fatos ocorridos do dia 25 de agosto de 1975 (Dia do Soldado) na Lagoa do Parque Solon de Lucena exigiam um relato de fôlego há 36 anos. Foram trinta e cinco mortos. Entre os quais vinte e nove crianças. No triste cenário, uma embarcação do Exército Brasileiro que afundou nas águas da nossa Lagoa. O livro “Opus Diaboli – A Lagoa e outras tragédias”, do jornalista e escritor paraibano Gilvan de Brito busca mover o moinho do tempo com esta e outras águas passadas.
Os militares que governavam o país com mão de ferro foram os protagonistas desta tragédia anunciada. A irresponsabilidade esteve no comando do triste espetáculo. Mais de cento e cinquenta pessoas equilibravam-se numa embarcação com capacidade para pouco mais de sessenta pessoas sentadas. Gilvan de Brito estava lá quando tudo aconteceu e até fez a cobertura jornalística. Com sua larga experiência de redação e  reconhecido talento de escritor e dramaturgo, soube como ninguém registrar neste livro um fato que se tornou inesquecível para os pessoenses.
Em “Opus Diaboli – A Lagoa e outras tragédias” Gilvan estabeleceu um marco simbólico. Apenas este resgate já teria um imenso valor histórico e literário. Todavia, o espírito inquieto e investigativo do autor foi buscar a demarcação de outras tristezas. O primeiro registro foi em 1501, quando Américo Vespúcio narrou a antropofagia cometida pelos índios de Baía da Traição contra três marinheiros. A chacina dos 600 habitantes de Tracunharém pelos índios potiguaras também faz parte de uma coletânea de fatos que sangraram a história desta Paraíba velha de guerra.
Publicado com recursos do Fundo Municipal de Cultura – FMC, o livro de Gilvan é marcado por um diálogo denso entre a percepção aguda do repórter e a magia criadora do escritor. É desta forma que o pulsar da história nos arrasta página por página. Como bem diz o jornalista Jackson Bandeira no posfácio da obra, “sem este livro estaria faltando alguma coisa na historiografia paraibana”. Essa capacidade de conjugar o melhor  jornalismo com o talento literário reafirma o escritor de Opus Diaboli na galeria dos autores paraibanos imprescindíveis. Aqueles que traduzem a pulsação das ruas e as razões do que nem sempre interessa como notícia. Até mesmo a agonia dos que perderam entes queridos naquela tarde sorumbática foi lembrada neste relâmpago da memória. Enfim, um livro que vale a pena ser lido.
 Texto publicado no Jornal da Paraíba em 21.10.12
 

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

TARANCÓN - A MÚSICA DO MUNDO

Por Lau Siqueira

Somente uma forte comunhão de ideias sobre a música e sobre o mundo para sustentar um fenômeno como o Tarancón. O ano de 2012 marca os quarenta anos de estrada deste grupo que jamais abriu mão da identidade latino-americana. Desde a primeira formação com
Miriam Miráh, Emílio de Angeles, Marli Pedrassa, Alice Lumi, Halter Maia, Jica Nascimento e Juan Falú, até a formação atual, com Ademar Farinha, Emilio de Angeles, Jonathan Andreoli, Jorge Miranda, Lucia Nobre, Moreno Overá, e Natalia Gularte, a pegada é a mesma. A partir do terceiro disco destacamos uma presença fundamental para a história do grupo: Sérgio Turcão. No mais, músicos jovens vão sendo incorporados e o Tarancón permanece firme com suas flautas, charangos, violas, quenas, sikus, bombo, cajón, congas, bongôs, etc.
Num tempo em que a diluição domina o mercado fonográfico o Tarancón aliou-se à poesia e à existência, numa perfeita conjugação de tradição e modernidade. Executa até mesmo músicas dos Beatles “sin perder la ternura jamás”. Suas raízes estão cravadas nos Andes, mas também nos Pampas, na Caatinga, no Cerrado, nas florestas e becos de uma América que transborda através da musicalidade do seu povo. O Tarancón nasceu no Brasil, formado por músicos de vários países e consegue extrapolar todas as fronteiras para manter-se íntegro, com uma capacidade ímpar de representatividade cultural do continente latino-americano.
O eco da mais recente passagem do Tarancón pela Paraíba ainda pulsa na memória da  cidade. No dia 30 de dezembro de 2008 o grupo levou ao delírio um público de cerca de cinco mil pessoas, no Festival Música do Mundo promovido pela Fundação Cultural de João Pessoa nas areias de Tambaú. Foi um momento de êxtase estético e político. Um envolvimento raro na relação artista/plateia que impulsionou os músicos para um arrastão, tocando no meio do público. Uma emoção que se tornou histórica e que certamente faz parte dos bons momentos desses quarenta anos de história. O assédio das pessoas em busca dos discos, após o show revelou a perenidade deste rio de águas cristalinas.
O Tarancón se alimenta de uma bem definida seiva cultural que extrapola o universo musical e adentra na paixão política por um mundo mais justo, por uma América Latina democrática, livre das ditaduras, constituindo seus passos numa longa caminhada, no cumprimento de um destino onde a sede e a fome estejam apenas na lembrança de um tempo de rebentação dos nossos sonhos. Seja através da música, da poesia que pichamos pelos muros ou das lutas que nos arrastam para uma nova manhã de justiça e liberdade. Aos quarenta anos e depois de viver um século o Tarancón parece estar “volvendo a los 17”.
 


Texto que será publicado na minha coluna do Jornal da Paraíba, no próximo domingo.

domingo, 23 de setembro de 2012

O SILÊNCIO DAS PRAÇAS


Às vezes, criticamos de forma aguda o que existe e silenciamos diante das supressões, das omissões, dos apagões e do vazio. O Movimento Cultural pessoense se mostrou perplexo e inquieto diante  de uma notícia sombria: este ano não haverá o Circuito Cultural das Praças. O desprezo foi tamanho que sequer anunciaram o fim de um projeto que há seis anos envolvia  milhares de pessoas. É certo que havia a necessidade de muitos ajustes. Mas, haveremos de concordar que sua extinção  pura e simples é um tiro no pé da política cultural da cidade.

O Circuito Cultural das Praças nasceu em 2006, no Anfiteatro Lúcio Lins. Uma articulação da FUNJOPE com a comunidade artística dos Bancários. Depois foi se espalhando na Praça do Coqueiral, na Praça Bela, Praça do Caju... E funcionava como um respiradouro nas praças que estavam sendo construídas e revitalizadas. Depois vieram bairros como Castelo, Gervásio, Manaíra, Padre Zé, Cidade Verde...  Eram tantas as praças!  Mas, a verdade é que o Circuito cresceu e os problemas também. O primeiro deles foi a incapacidade de um atendimento decente por parte das empresas prestadoras de serviço de sonorização. Outro problema foi a perda do protagonismo das gestões culturais comunitárias, com o lançamento de editais generalizantes. Optou-se pela quantidade em detrimento da qualidade. Os editais não selecionavam, bastava uma inscrição. Portanto, admitimos que ouve sim um refluxo e o impacto maior foi na perda do diálogo comunitário.

Tudo poderia ser consertado. Tudo poderia ser dialogado e reconstruído. A FUNJOPE ainda tentou uma saída na parceria com a Secretaria de Desenvolvimento Social. Melhorou, mas ainda não ficou “no grau”.  Este ano, ficamos esperamos um diálogo com a comunidade cultural para retomar o Circuito. Não rolou nada. Sem qualquer justificativa oficial a circulação da produção cultural da cidade nas praças, de setembro à março, foi suprimida. Não sabemos o motivo, mas os jornais apontam para um déficit de 46 milhões na Prefeitura de João Pessoa. Algo que preocupa, pois a FUNJOPE acaba de lançar um edital de R$ 1 milhão para a área do áudio-visual e anunciar uma versão paraibana da Virada Cultural paulista. Não sabemos se haverá recursos para pagar despesas que não estavam previstas na Lei Orçamentária, mas as praças já foram caladas.

Esperamos que o vazio criado com a extinção do CCP não seja tão danoso para a democratização desses espaços públicos. A cidade que queremos ainda é aquela onde as pessoas silenciavam, mas para ouvir um solo de tímpano, um babau, uma tribo, um rock, ou a Orquestra de Violões tocando Vila Lobos. João Pessoa é uma cidade que aprendeu a ouvir e gosta de ser ouvida.   

 

Publicado na edição de hoje do Jornal da Paraíba.

Cantiga de grilo/ No tiro ao Álvaro/ Um riso do estilo*



Em “A Farmácia de Platão”, Jacques Derrida consegue resumir a fórmula do que podemos considerar uma boa leitura. Já no primeiro parágrafo o pensador francês diz que “um texto só é um texto se ele se oculta ao primeiro olhar, ao primeiro encontro, a lei de sua composição e a regra de seu jogo.” Para o exercício a seguir  queremos propor que  a leitura seja realizada com olhos de quem lê uma fotografia. De preferência, dialogando com Derrida na complementação da imagem e no jogo das suas possibilidades. A leitura, então, conduzirá ao impacto de uma “aventura planejada”, como diria Décio Pignatari. Algo que, aliás, tem um peso-pesado na linhagem e no drible de um haikai tão brasileiro quanto o Rei Pelé.

Há quem diga que essa forma japonesa já ganhou sua autonomia na flora diversa da Língua Portuguesa. Outros classificam pejorativamente essa autonomia de micro-soneto. Alguns, com um olhar de Babalorixá sobre a espiritualidade das flores,  sequer a reconhecem. Esse debate renderia um longo ensaio. Fato que consideramos descabido neste momento. Na verdade, entendemos que o que deve prevalecer no haikai é o prazer da leitura a partir do desnudamento da imagem. Portanto, na sensação de descoberta de um mundo novo a cada sílaba. Tudo isso nos parece natural nas páginas que se seguem, neste “Tão breve” aguaceiro de pequenas chuvas.  Álvaro Posselt  persegue as imagens como um caçador  e sabe, como poucos, deixá-las suficientemente livres da configuração formal. Assim, o leitor pode recompor contextos e conteúdos a cada leitura.


O autor, deliberadamente, brinca com as palavras. Ora adentrando pelo campo da ironia, ora colhendo das muitas temáticas um olhar crítico, por exemplo, sobre o impacto das novas tecnologias. O impensável para um haikai passa a ser uma provocação gramatical e uma provação aos movimentos cotidianos da linguagem nas rede sociais: “Páginas do Orkut/ Essa tal de gramática/ naum c diskut”. Um texto que revela o bom humor deste escritor da terra de Paulo Leminski e Alice Ruiz, dois expoentes, dois inventores, dois mestres do mais saboroso, original e certeiro haikai made in Brazil. Nem mesmo as radicais mudanças climáticas de Curitiba escapam ao olhar condensado de quem conhece profundamente a tradição de Basho: “Curitiba não nos poupa/ Ontem eu tomei sorvete/ Hoje eu tomo sopa”. Ou seja: o comportamento humano dentro das mutações de temperatura cabe inteiro na construção poética deste escritor paranaense. Um criador que optou por não algemar suas possibilidades.

O autor faz da linguagem um parque de diversões, onde tudo é possível. “Anedota infantil/ Pinóquio tira folga/ no primeiro de abril”: faturas como esta mostram que o poeta ambiciona sempre extrapolar seus limites. Amante apaixonado que é desta poética de origem nipônica e estudioso das possibilidades desenvolvidas no Brasil. Convicto do olhar pedagógico que sua condição de professor impõe com naturalidade, Álvaro Posselt se firma com este “Tão breve” - belo, denso, irônico e filosófico –, como  colecionador de sorrisos dentro desta estranha, rica e sempre renovada literatura contemporânea brasileira.  

Desta forma o poeta vai adensando seu estilo e buscando caminhos para uma construção poética onde o leitor é o verdadeiro protagonista. Tudo com uma imensa capacidade de sedução em cada poema. Até desaguar de vez nas energias que, segundo Barthes, nos conduzem pelos caminhos de um saber multiplicado. Temos aqui um livro onde a obrigação da leitura é derrotada pelo prazer de incorporar-se ao riso de cada palavra.

 Lau Siqueira

*Prefácio do livro "Tão breve", do escritor paranaense Álvaro Posselt

domingo, 2 de setembro de 2012

IDEB E LEITURA



A divulgação do resultado do IDEB – Índice de Desenvolvimento do Ensino Básico mostra um diagnóstico terrível da Educação em nosso país, mas também aponta caminhos. O fundamental é percebermos que os resultados não são responsabilidade exclusiva das gestões municipais, estaduais e federal da Educação. A sociedade precisa assumir o seu papel e cobrar, mas também apontar soluções. Muitos fatores podem fazer a diferença. Sobretudo a criatividade dos profissionais e o envolvimento da comunidade. Em São Mamede temos uma situação curiosa. Enquanto a Escola Estadual Seráfico da Nóbrega bombou com 5.8, alcançando a maior nota na Paraíba a Escola Estadual Napoleão Nóbrega ficou com nota 2.9. Qual será o fenômeno que separa de forma tão acentuada o nível de ensino de duas escolas estaduais no mesmo município?

Ainda sem respostas para a questão acima lembro a escola que aparece em primeiro lugar no ranking  nacional - Escola Municipal Carmélia Dramis Malaguti, em Itaú de Minas - MG,  com nota 8,6. Segundo a diretora, Maria Rodrigues além do trabalho com os profissionais do ensino a gestão participativa e o compromisso com a leitura são os segredos do bom desempenho. Quando a comunidade participa, quando os pais são convocados e comparecem, quando a escola desenvolve o incentivo à leitura os resultados chegam naturalmente. Este é o resumo da ópera.  A leitura, no entanto, aparece como um elo fundamental. Segundo Roland Barthes, a Literatura contém muitos saberes. Ele cita exemplos como o clássico Robinson Cruzoé de Daniele Defoe, onde a História, a Geografia, a Antropologia e a Filosofia se aparecem de forma natural. Esta é uma verdade incontestável que precisa ser considerada.


(Publicado no Jornal da Paraíba do dia 26 de Agosto de 2012 - domingo)

As políticas de incentivo a leitura estão postas pelo MEC e pelo MinC.  O investimento em livros tem sido volumoso. O Brasil é o décimo produtor de livros e o MEC é o 3° maior comprador de livros do mundo. O que as direções das escolas mal posicionadas no IDEB precisam explicar é a falta de acesso aos livros pelos estudantes. Falta pessoal ou faltam recursos? Nada disso. Certamente, faltam boas iniciativas para a formação de leitores críticos. O exemplo de São Mamede é emblemático. Uma circunstância que precisa ser apurada. Desconfio muito do que provoca a diferença entre essas duas escolas sob a mesma gestão estadual. Certamente que a efetivação de políticas públicas de incentivo à leitura e uma gestão cada vez mais participativa pode fazer a diferença. Esta é apenas uma provocação, pois o desafio está posto e os caminhos para uma educação de qualidade estão cada dia melhor definidos. A realidade não muda por decreto e a vontade de muitos pode e deve fazer a diferença para as futuras gerações.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

O desejo do impossível

por Lau Siqueira
A literatura contemporânea construiu elos através dos séculos e se fortalece com isso. A Poesia Visual que aparece como vanguarda no final do século XX, por exemplo, não era segredo para Simmias há dois mil anos, na Grécia. A Arte Literária é um desafio ao tempo. Através dos séculos promove releituras de cenários que evocam sua permanência. Assim, a leitura do excelente livro Microf(r)cções (Editora Multifoco-RJ, 2012) do escritor campinense Janailson Macedo Luiz, lembra naturalmente a releitura de Baudelaire em “Meu coração desnudado” (Mon coeur mis à nu) e “Rojões” (Fusées). Essas obras foram descobertas por um  biógrafo de Baudelaire e se perderiam como anotações manuscritas e dispersas. Guardadas as proporções, fruto de processos semelhantes aos relatados por Janailson acerca do método de experimentação das suas micro-narrativas.  Os textos deste “Microf(r)cções” alertam, também para as possibilidades e inquietações da chamada literatura digital. A maioria obedece rigorosamente o limite de 140 caracteres exigidos pelo Twitter. Mas, que literatura não é digital nos dias de hoje? Qualquer livro, antes de ser impresso, é transportado por e-mail ou pen-drive para a gráfica.

O cotidiano e suas cores, a sensualidade e a pornografia,  uma refinada ironia, a crítica social aguda, o passeio pelo imaginário das fábulas e até mesmo um indisfarçável olhar do historiador que é Janailson, estão presentes nesta obra que exige atenção do público e da crítica. Narrativas com começo, meio e fim em cinquenta caracteres e até menos, fazem de Microf(r)cções uma obra referencial da Nova Literatura feita na terra de Augusto dos Anjos e José Lins do Rego. O autor conhece a arte da esgrima literária. Surpreende com uma escrita madura, ainda que produzida no auge da juventude.

“Quando a cigarra Inspiração vai vadiar e falta ao serviço, a formiguinha Transpiração tem que trabalhar dobrado” (A Cigarra e a Formiga, pg 26). Este ensaio mínimo é revelador da angústia presente na metalurgia da palavra,  ofício ao qual escritores do mundo inteiro e em todos os tempos entregam suas vidas. Vale a pena buscar no Google esse escritor paraibano e localizá-lo dentro dos focos mais promissores da Literatura Brasileira deste início de milênio. Aos que asfixiam o bom senso julgando a qualidade pela extensão do texto, o livro de Janailson responde com  o escalpo de uma modernidade que se renova. Dialoga com  um futuro esvoaçante sem tirar os pés da boa literatura que  justifica a tradição e os cânones. Ah, antes que esqueça: “o desejo do impossível” é coisa de Roland Barthes. Aliás, uma das melhores definições de literatura que conheço.

(esse texto será publicado no Jornal da Paraíba do próximo domingo)

segunda-feira, 9 de julho de 2012

A LEITURA FAZ A FEIRA

Por Lau Siqueira
Existem consensos que parecem inúteis. Não se configuram com maior amplitude, apesar do amplo reconhecimento. As ações de incentivo à literatura e leitura são o melhor exemplo. Não há quem discorde de algumas verdades: o hábito da leitura melhora a qualidade do ensino porque torna o alunado mais ágil no mergulho do conhecimento; o hábito da leitura eleva o nível da consciência cidadã, pois o leitor estabelece uma perspectiva mais nobre para a sua vida e desenvolve um inevitável senso crítico. Certamente estamos falando aqui, não de doutrinação, mas de libertação. O hábito da leitura e mais ainda, da boa literatura, independentemente de gênero ou estilo, oferece uma possibilidade concreta de elevação da qualidade de vida. Segundo Antônio Cândido, a literatura deveria ser considerada um dos direitos humanos.

Logicamente que não queremos mascarar a realidade da indústria editorial globalizada, onde a concentração de riquezas dita as regras, com o apoio incondicional da legislação brasileira e da Fundação Biblioteca Nacional. Também não queremos confundir “apoio à leitura e literatura” com os megaeventos da indústria editorial ou com os seminários e conferências de sacralização dos escritores. Poucos empreendimentos culturais apontam para a necessária formação de leitores. A Feira Binacional do Livro de Jaguarão-RS, começa a ter essa preocupação a partir da sua quarta edição que acontecerá entre novembro e dezembro deste ano. A Feira do Livro de Boqueirão-PB, vai na mesma direção. A tradicional Jornada de Literatura de Passo Fundo-RS vem trabalhando esta perspectiva, com a difusão das obras dos autores convidados. Esses formatos, no entanto, são raros.

Neste frio inverno de Porto Alegre, os editores gaúchos organizados decidiram dar um importante passo para a sua própria sobrevivência. Organizaram a 1ª Festa da Leitura aconteceu semana passada, entre os dias 2 e 9 de julho, no charmoso Mercado Público de Porto Alegre. Um evento que busca incrementar a formação de professores e bibliotecários, principalmente. Profissionais que atuam  como mediadores entre o leitor e a obra literária. A 1ª Feira da Leitura apresentou uma programação com oficinas de mediação e atividades de incentivo à leitura. Contação de história, leitura silenciosa, leitura em público, leitura em Braille e libras, leitura com música, leitura com teatro, leitura em grupo, direcionadas para adultos adolescentes e crianças estavam disponíveis ao público.

A organização contou com uma estrutura muito reduzida e certamente com um orçamento modesto. Com alguns importantes apoios institucionais, o Clube dos Editores do Rio Grande do Sul deseja transformar a Festa da Leitura numa ação continuada. Aqui na Paraíba, alguns abnegados servidores municipais estiveram empenhados na elaboração de um projeto semelhante, reunindo as experiências já existentes. Depois que o prefeito Luciano Agra decidiu desestruturar a administração em nome dos seus interesses pessoais e ressentimentos políticos, a iniciativa deverá migrar para alguma instituição independente e, certamente, suprirá esta lacuna nas iniciativas de cunho cultural e cidadã que podem fazer a diferença para as futuras gerações de paraibanos. A forte convicção de uns poucos, certamente, mais uma vez fará história.


Texto que será publicado na próxima quinta-feira, na minha coluna do Jornal A União.

terça-feira, 3 de julho de 2012

SILVINO OLAVO

por Lau Siqueira
As novas mídias provocam uma reflexão inadiável acerca do que pode ser consagrado pela eternidade. Nestes tempos modernos grande parte dos textos publicados nascem e se consolidam enquanto arquivo digital. É verdade que muita banalidade acabará dialogando com o futuro. Todavia é concreta também a possibilidade de apagarmos as linhas de esquecimento que tangem a poesia e a vida de autores importantes. Silvino Olavo entre eles. Um autor necessário às novas gerações. O poeta nasceu no município paraibano de Esperança em 1897 e faleceu em 1969 na “Rainha da Borborema”.


Dono de uma lírica que dialogava diretamente com o simbolismo de Mallarmé, Rimbaud, Verlaine, Eugênio de Castro,  Cruz e Sousa, entre outros, Silvino Olavo foi  um pré-modernista contemporâneo da Semana de Arte Moderna de 1922. Fez parte de uma geração que provocou a ruptura definitiva com o parnasianismo, mas não com o soneto. Carregava uma indisfarçável e grata influência do poeta belga Georges Rodenbach que era, por assim dizer, seu autor predileto. Festejado pela crítica nacional da sua época, principalmente pela obra Cysnes, publicada em 1924 pela Brasil Editora e Sombra Iluminada, três anos depois,  tornou-se célebre também pela vida acadêmica. Sua tese, “Cordialidade - estudo literário, 1° série” foi transposta para o inglês e publicada em Nova Iorque no ano de 1927.

O poeta teve vida intelectual intensa, convivendo com personalidades importantes da sua época como Peryllo de Oliveira, Américo Falcão, Eudes Barros e Amaríllo de Oliveira. Promovia tertúlias em residências familiares, tendo sido um dos criadores  do conhecido “Grupo dos Novos”. A despeito de todos os dramas vividos, Silvino construiu uma obra que jamais será esquecida. Um dos motivos é o fato de representar o diálogo intelectual de uma geração que conviveu com uma intensa e turbulenta fração da história da Paraíba. O poeta era amigo de João Suassuna e trabalhou no governo de João Pessoa. Também foi colaborador do Jornal A União e da revista Nova Era. A trágica morte dos dois é apontada por alguns como uma das causas da enfermidade do poeta. Sua brilhante trajetória intelectual não  foi suficiente para poupá-lo dos sofrimentos aos quais estamos todos sempre muito vulneráveis. Silvino Olavo padeceu de transtornos psíquicos, tendo sido internado algumas vezes  no Complexo Psiquiátrico Juliano Moreira. Mesmo gravemente enfermo, não deixou de produzir belos versos. Faleceu no hospital Dr. João Ribeiro, em Campina Grande aos 82 anos.

“Na minha via crucis de Amargura,/ entre os ciprestes lúgubres, silentes,/ no silêncio das horas mais algentes/ venho, às vezes, beijar-te a sepultura.” Com a primeira estrofe de “Ronda Lúgubre”, poema do seu primeiro e consagrado livro, Cysnes, não poderíamos deixar de registrar esta breve provocação acerca da obra de um dos mais instigantes poetas paraibanos de todos os tempos.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Memórias de Macondo


Por Lau Siqueira

Começo minha caminhada nas páginas do jornal A União, lembrando que dia desses fiquei abatido - na verdade, bem mais que esperava - ao saber que Gabriel Garcia Marquez, uma das mentes de maior produtividade da literatura latino-americana, estava perdendo a memória. Fiquei triste pelo velho Gabo, autor de Cem Anos de Solidão, O Amor nos Tempos do Cólera, Relato de um  Náufrago, Ninguém Escreve ao Coronel, O Outono do Patriarca e outros clássicos que fizeram da América Latina um continente literário e tornaram nossos dias e noites mais plenos. O conjunto da obra rendeu a este colombiano de Aracataba, nascido em 06 de março de 1927, o Prêmio Nobel de Literatura em 1982.
Há alguns anos, circulou na internet um texto atribuído à Garcia Marquez, onde ele se despedia da vida. Alguns dos grandes jornais brasileiros publicaram o tal texto em letras garrafais. Mas, a  autoria foi desmentida pelo próprio escritor. Agora, não. Agora sentimos que ele está mesmo doente. Aos 85 anos, já não reconhece os amigos mais próximos e desde os 80 anos ele próprio vem constatando que sua mente já não é a mesma. Desistiu de escrever seu livro de memórias depois de ter perdido o irmão e ter começado a perceber que aquela sua “engrenagem criativa” começava a falhar.
Quem gosta de boa literatura acaba mantendo com os autores preferidos um certo grau de intimidade, sentindo suas dores como se fosse membro da família. Nestes tempos de cólera, quando a memória de alguns anda destruída pela ambição, pela embriaguês do poder ou mesmo pela falta de caráter, nunca é demais lembrar que somos muito pequenos diante da história. Talvez somente o realismo fantástico criado por Garcia Marques seria capaz de explicar as razões de quem esquece que as coisas conquistadas a qualquer preço, não valem quanto pesam. O que é real nesta vida é que os personagens da literatura tantas vezes são mais vivos que certos viventes.
 “A memória do coração elimina as más recordações e dignifica as boas, e graças a esse artifício, conseguimos superar o passado.” Esta frase remete-nos a reflexões. A memória de Gabriel Garcia Marquez é, na verdade,  toda uma obra construída com sotaque latino, com cheiro de povo. Ainda que passem os séculos, terá sua perenidade garantida. Todavia, entre o criador e seus personagens, existem as ruas vazias de Macondo. Lugar onde as sete gerações da família Buendía nos farão lembrar que entre a realidade e a fantasia, existem os valores humanos. Gabito, como era intimamente conhecido, soube escrever sua memória na galeria dos homens que resistem aos apelos do poder e lutam pelos direitos do povo. Por isso, quando morou em Nova Iorque, foi perseguido pela CIA. Agora é hora de rebuscar a estante e reler seus livros e perceber o quanto são pequenos alguns personagens da vida cotidiana.


Com esse texto, minha estréia semanal no Jornal  A União.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

O medo dos pequenos

por Lau Siqueira

Vamos aqui nos referir aos pequenos. Não apenas aos de tenra idade. Mas, aos que somente se tornam visíveis enquanto multidão ou grave sinalização estatística.  Falo dos que sobraram na curva das tantas equações da economia globalizada.  Uma economia cujo modelo conjuga sociologicamente  suntuosidade condensada com vulnerabilidade dilatada. Em alguns períodos com maior progressividade. Enfim, o desafio está posto. Mas, antes que a politicagem tome conta do debate é bom lembrar que a desigualdade chegou no Brasil com as primeiras caravelas. Somente nos últimos anos começamos a efetivar o  bom combate das políticas públicas. No entanto, as transformações na cartografia social ainda são lentas. Cada vez que a miséria explode seus efeitos sobre o cotidiano aflora o medo da barbárie.  

Na semana que passou, mais uma vez, dei de cara com o medo dos pequenos.  Estive operando o resgate de cinco famílias em Mangabeira, num cenário violado pelo crime.   Naquela madrugada, a guerra do crack havia eliminado mais cinco. Aliás, seis, pois uma das vítimas estava grávida.  Todos vivendo  na “idade da pedra”: entre o tráfico e o consumo devastador do crack. As chacinas,  mais que problema policial,  revelam-se enquanto grave mazela social. Afinal, todas as violações dos direitos humanos estão ali reunidas.  Direitos historicamente usurpados por Cachoeiras e cascatas de corrupção e impunidade.

Numa antiga unidade da SUCAM  que até o dia da chacina abrigava famílias sem teto coordenadas por um movimento de luta por moradia (MOVIS), uma criança olhou para mim e disse de forma imperativa: “não quero mais ficar aqui.” Ainda era intenso o cheiro de morte no ar. Mais adiante encontrei uma jovem senhora amamentando um recém-nascido. Muitas crianças no meio do tempo - a violência gera contrastes inevitáveis. A delicadeza e a  brutalidade estão sempre frente à frente. Literalmente, ficaram por lá apenas os que realmente estão no desamparo. Os excluídos de tudo. Os que sobreviveram e não poderiam fugir porque não tinham para onde ir. Os que todo dia submetem suas vidas às balas perdidas na guerra de uma modernidade condenada, minguando nos becos.

Aquelas pessoas sofridas eram representantes de uma multidão invisível. Mesmo na era do chip e da TV Digital. Naquela noite de sexta o medo desnudava todos os olhares. Principalmente os olhares pequenos. Olhos de gente que cuida dos seus, mas precisa de ajuda para transbordar no oceano do mundo. Por isso ainda vale a pena dizer o que precisa ser dito e fazer o que precisa ser feito. Mesmo para revelar uma profunda indignação. Como dizia Guimarães Rosa, “o que a vida requer é coragem”. Viver é sempre um bom combate.

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Artigo que será publicado no Jornal da Paraíba do próximo domingo, 17/06/12